A nova prisão de 3 mil m² de Marcelo no Morumbi

A nova prisão de 3 mil m² de Marcelo no Morumbi

Empresário deixa a carceragem da PF no dia 19 e passa a cumprir a pena em regime domiciliar

Ricardo Brandt e Gilberto Amendola

13 Dezembro 2017 | 05h00

Correções: 13/12/2017 | 18h32

Na próxima terça-feira, dia 19, o empresário Marcelo Odebrecht vai ficar frente a frente com o juiz de execução penal da 12ª Vara Federal de Curitiba, Danilo Pereira Junior, e indicará ao magistrado o endereço onde vai cumprir sua prisão domiciliar. A formalidade é o último passo para que o empreiteiro, herdeiro de uma das maiores construtoras do País, volte para casa exatos 914 dias depois de ser preso na 14ª. fase da Operação Lava Jato.

A foto publicada pelo Estado nesta quarta-feira, 13, e pelo portal www.estadao.com como sendo da casa do empresário Marcelo Odebrecht, em São Paulo, não é a foto da casa dele. O Estado errou ao afirmar que Odebrecht cumpriria sua prisão domiciliar nesse imóvel da imagem publicada, a partir da semana que vem.

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Marcelo vai trocar a cela mal iluminada de 12 metros quadrados, nos fundos da Superintendência da Polícia Federal na capital paranaense – que dividia com outros acusados e delatores –, por sua residência em um condomínio de segurança máxima no Morumbi, área nobre de São Paulo. O local foi onde a Polícia Federal o prendeu no dia 19 de junho de 2015.


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Sua defesa começou a fazer os preparativos finais para que ele deixe a prisão a tempo de passar o Natal em casa. A multa imposta no acordo de delação premiada – R$ 73,3 milhões – já foi quitada. Como ele vai voltar para casa ainda está indefinido.

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Uma das celas da ala da Lava Jato no Complexo Médico-Penal onde Marcelo ficou antes de fechar a delação

Os advogados têm em mente três opções para levar o empresário para a capital paulista. A primeira é fazer como o que foi feito com outros delatores e colocar Marcelo em um voo comercial escoltado por policiais. A hipótese preocupa os defensores, que temem algum tipo de hostilidade. Outra opção seria colocar o empresário em um carro e fazer o trajeto de 416,6 quilômetros até a residência. A última, que mais atrai a todos, é um avião fretado. No trajeto, agentes acompanhariam o empreiteiro. Cabe aos defensores indicarem o modo, mas o juiz costuma ouvir a PF para dar o “OK” final.

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Em São Paulo, sai de cena o beliche estreito de concreto e a rotina de exercícios em um corredor improvisado e entra a vida em uma casa ampla com piscina. Marcelo Odebrecht foi condenado a 19 anos e 4 meses de prisão, mas por causa de sua colaboração à Justiça cumpre 10 anos por lavagem de dinheiro e associação criminosa no âmbito da Operação Lava Jato. Pelo acordo, os primeiros 2 anos e meio, permaneceria preso em Curitiba. O restante, em casa, com tornozeleira.

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A mudança de regime faz parte do acordo de colaboração premiada homologada pela presidente do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, em 30 de janeiro, dias após a morte do ministro Teori Zavascki, então relator da Lava Jato. Marcelo vai progredir ao regime domiciliar fechado. O empresário só volta a pisar na rua sem qualquer tipo de restrição em 2025, quando terminam os prazos acordados com a força-tarefa da Lava Jato. Pessoas próximas ao empresário afirmam que a mulher, Isabela, e as três filhas adolescentes não escondem que encaram a progressão do regime fechado para o domiciliar como “liberdade” nas visitas à carceragem da PF. Em casa, ele poderá receber parentes de até 4º grau, como primos e tios-avós, além de outras 15 pessoas indicadas por ele à Justiça.

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A nova “cela” de Marcelo Odebrecht tem mais de 3 mil metros quadrados, ampla área de lazer, quartos com closet e banheiros exclusivos – bem diferente do buraco usado como vaso sanitário na cela na PF. Corretores consultados pelo Estado avaliam que a casa custe entre R$ 20 e E$ 30 milhões. O condomínio é vendido no mercado como “o mais seguro de São Paulo”. O custo de manutenção é de cerca de R$ 20 mil mensais para cada morador. Parte desse custo vai para a manutenção de um jardim privativo projetado pelo paisagista Burle Marx. Além da casa de Marcelo, outras 39 residências compõem o empreendimento. Nenhuma do tamanho da do empresário.

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Para entrar ou sair do condomínio, o visitante precisa, claro, ser autorizado por um morador, fornecer documento de identificação e digitais. O empreendimento é coberto por câmeras por toda a sua extensão. Só na entrada, a reportagem contou 5 funcionários (entre seguranças e porteiros). Entrar pela primeira vez no condomínio pode demorar mais de 5 minutos. A reportagem tentou contato com a associação de moradores, mas as ligações foram atendidas por funcionários do condomínio – que além de serem proibidos de falar com a imprensa, não garantiram nem sequer transmitir recados ou pedidos de entrevista.

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Até a confirmação de que Marcelo Odebrecht de fato voltaria ao condomínio, a grande preocupação dos vizinhos era com os saguis que costumam frequentar um parque colado ao empreendimento. O temor era de que os casos de animais infectados com febre amarela registrados na zona norte da capital chegassem às suas portas. Agora, a volta de Marcelo virou uma preocupação.

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A calma do lugar, que só costumava ser alterada em dias de jogo no Estádio do Morumbi, começa a ser quebrada com a volta do empresário. “Ouvi alguns moradores brincando e dizendo que ‘nosso vizinho famoso está voltando’”, disse um porteiro da região. Os moradores temem que com o retorno de Odebrecht a rua fique “apinhada de imprensa e curiosos”.

Cárcere. Durante os 30 meses de reclusão, Marcelo mudou. Do empresário reativo que se recusava a responder a perguntas de policiais e do próprio juiz Sérgio Moro, o empreiteiro se tornou mais simpático, dividindo o dia a dia com os outros detentos, ajudando colegas de cela e até desconhecidos que passavam apenas uma noite na prisão. De acordo com pessoas que viram de perto a mudança, o empreiteiro chegou a doar roupas a um preso por contrabando de cigarro falsificado que chegou à carceragem sem casaco durante o período de inverno.

Dominado pela ideia de “liberdade”, abandonou nos últimos dias o hábito de escrever e a dieta rigorosa que seguia com frutas e barras de cereais, mas ainda manteve a rotina de exercícios físicos diários. Marcelo e o companheiro de cela, o lobista Adir Assad, acordam antes do sol nascer, fazem flexões, abdominais e step (exercício em que se sobe e desce um degrau repetidas vezes). Na Custódia da Polícia Federal em Curitiba, onde Odebrecht passou a maior parte do tempo de presidiário – ele chegou a ficar um breve período no Complexo Médico-Penal –, a limpeza é feita pelos presos. Assim como os cuidados com as roupas de camas e os objetos pessoais.

A PF fornece três refeições: um café com leite e pão com manteiga pela manhã e almoço e jantar, onde o cardápio é uma variação de arroz, macarrão, feijão e carne. Foram raras às vezes em que Marcelo aceitou a comida fornecida. Ele possui uma rede, que apelidou de “logística”, montada pela empreiteira para levar alimentos frescos e refeições que aquecia em um micro-ondas ou em um fogão elétrico instalados na carceragem.

Em nota, a defesa afirmou que “Marcelo Odebrecht está inteiramente empenhado em continuar contribuindo de forma efetiva com as autoridades nos termos do seu acordo de colaboração”.

A PENA DO EMPRESÁRIO

* O acordo

Em troca de redução das penas, Marcelo Odebrecht concordou em delatar os crimes cometidos por ele no comando da Odebrecht. O empreiteiro pagou R$ 73,3 milhões de multa e aceitou acordo que prevê o cumprimento de 10 anos de pena em quatro partes.

*O cárcere

Foi acordado 2 anos e 6 meses em regime fechado, que terminam na terça-feira, dia 19.

* Em casa

O empresário vai passar os próximos 2 anos e 6 meses em redime domiciliar fechado com tornozeleira eletrônica. Depois, pelo mesmo período, passa para o regime semiaberto diferenciado com recolhimento domiciliar noturno e nos finais de semana e feriados. Nos últimos 2 anos e 6 meses, ele ficará em regime aberto com recolhimento domiciliar nos finais de semana e feriados, mas podendo trabalhar.

Correções
13/12/2017 | 18h32

Correção: reportagem ‘Nova prisão de Marcelo tem 3 mil m²’ A foto publicada pelo Estado nesta quarta-feira, 13, e pelo portal www.estadao.com como sendo da casa do empresário Marcelo Odebrecht, em São Paulo, não é a foto da casa dele. O Estado errou ao afirmar que Odebrecht cumpriria sua prisão domiciliar nesse imóvel da imagem publicada, a partir da semana que vem. A casa foi identificada equivocadamente pela Polícia Federal no relatório Informação N.° 70/2015 GT/Lava Jato/DRCOR/SR/DPF/PR, de 2015. O documento traz os dados de endereços dos alvos da 14.ª fase da Lava Jato (Erga Omnes). O endereço que consta do documento é o de Marcelo Odebrecht, mas a foto anexada no relatório está errada, trata-se de um imóvel vizinho ao do empreiteiro, no mesmo condomínio. Nesta quarta-feira, o proprietário do imóvel cuja foto foi publicada na reportagem informou ao jornal, por meio de seus advogados, que a residência não é o endereço onde Marcelo Odebrecht vai cumprir sua prisão domiciliar. A PF confirmou ao Estado que a casa destacada no documento dos alvos da operação está errada. Nota do advogado do proprietário do imóvel erroneamente fotografado: “Na qualidade de advogado do proprietário da residência equivocadamente vinculada ao local da prisão domiciliar do Marcelo Bahia Odebrecht, cuja fotografia está estampada, tanto na capa do Estadão com circulação nessa data, como na página A8 e, ainda, no site desse prestigioso veículo de imprensa (www.estadão.com.br) encaminho a anexa notificação solicitando sejam adotadas as necessárias providências para, sem, de maneira nenhuma, mencionar o nome do meu cliente, corrigir as informações constantes na indigitada reportagem, especialmente no que diz respeito a vinculação da residência de meu cliente com o nome de Marcelo Bahia Odebrecht, devendo tal imagem ser imediatamente removida do sítio eletrônico do Estadão, sendo veiculada nota, na via impressa com circulação no dia 14.12.2017 e no site do Estadão, esclarecendo que a imagem da casa veiculada não corresponde à casa em que Marcelo Bahia Odebrecht cumprirá a sua prisão domiciliar.”

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