A feliz certeza de que valeu a pena

A feliz certeza de que valeu a pena

Ricardo Viveiros*

07 Outubro 2015 | 11h04

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Foto: Arquivo Pessoal

Ao completar 50 anos de Jornalismo vivo um instante mágico que une o passado, o presente e o futuro. Uma feliz oportunidade de dar graças à vida. De não me arrepender do passado, de seguir vivendo o presente com liberdade, ética, trabalho, esperança – e de olhar, sempre com coragem, para o futuro. E esse olhar tem a responsável consciência de que o dever, comigo mesmo e com a vida, ainda não está de todo cumprido.

Nasci no Rio de Janeiro, então Capital Federal, quando o nazismo havia sido derrotado, o mundo reorganizava-se e a tecnologia era a mais nova paixão mundial. Surgia uma cultura desenvolvimentista, promovendo uma ruptura com o passado. Experimentava-se um novo sabor: o da “modernidade”. Cheguei com o primeiro voo espacial, a televisão, o expressionismo abstrato, o computador, o Estádio do Maracanã, a intervenção norte-americana no Vietnam e a volta de Getúlio Vargas à presidência do Brasil, desta vez pelo voto livre e direto do povo.

Caricatura: Paulo Caruso

Meus pais foram os principais mestres, educando-me desde sempre e para sempre a respeitar tudo o que existe além de mim mesmo; lutar pela liberdade; ter a ética como princípio e a coragem como dever; amar e permitir ser amado; sonhar e construir; ser grato e nunca perder a fé; e, por fim, jamais abdicar um só segundo do sagrado direito à felicidade. Aprendi muito cedo que todos os seres humanos são diferentes entre si, mas que têm direitos iguais. Que é preciso respeitar para ser respeitado. Mas que o verdadeiro amor não exige nada, é dado sem esperar qualquer tipo de retorno. E que não há maior e mais valioso patrimônio do que os amigos.

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Caricatura: Cárcamo

 

E, assim, entendi que amar faz bem. E amei por toda a minha vida: pessoas, causas, lugares, projetos, realizações… E também a profissão que escolhi, o Jornalismo. Sou alguém vocacionado e dedicado ao difícil ofício de comunicar. Optei pela certeza de que crescer na alma é melhor do que enriquecer no bolso. Porque ninguém escolhe ser jornalista para ficar rico ou famoso. Carlos Drummond de Andrade disse-me, em 1968, na redação do Correio da Manhã: “É raro, entre muitos, os que, como você, conseguem prender a atenção do leitor. Mas, não tenha pressa de ficar conhecido, trabalhe e isso irá acontecer naturalmente”.

Comecei aos 15 anos trabalhando em jornal e revista, logo depois fui para rádio e televisão, por fim, atuei em agência de notícias e assessoria de imprensa. Uma carreira diversificada e rica, porque me proporcionou experiência em todas as áreas do Jornalismo. Acompanhei de perto – em alguns momentos tão de perto que pude sentir o cheiro da morte -, relevantes fatos da história do Brasil e do mundo. Cobri conflitos armados, entrevistei políticos, empresários, intelectuais, cientistas, esportistas. Vivi tragédias como incêndios, acidentes, explosões, terremotos, desabamentos. Por outro lado, também vi e relatei descobertas e acontecimentos que mudaram o mundo para melhor.

Na verdade, nasci repórter e gostaria de morrer repórter. Esse ser muito curioso – algumas vezes até inconveniente -, que olha, ouve, percebe, investiga, pergunta muito, confere tudo e conta o que descobriu, principalmente quando as pessoas torcem para que fique calado. O repórter é alguém que acredita ser capaz de mudar o mundo. E em algumas oportunidades até consegue. O repórter é um aventureiro responsável, alguém que traz a notícia no sangue. O sucesso, para ele, dura apenas poucas horas, no máximo uns alguns dias. Afinal, a notícia é um valioso produto de curta validade. O bom repórter nunca está satisfeito com resultado algum, para ele tudo sempre poderia ter sido ainda melhor. Trago como lema a frase de Cláudio Abramo, com quem tive breve convívio na “Folha de S. Paulo”: “O jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter”.

Permito-me compartilhar algo que também agregou responsabilidade à minha carreira de jornalista, palavras de Dom Paulo Evaristo Arns, também jornalista e escritor: “Ricardo Viveiros não precisa de apresentação. Visitou ele os pobres da periferia, andou pelas estradas duras da vida, conheceu as manhas dos grandes e a proposta de paz dos pequeninos. Portanto, possui uma presença, uma posição definida. É a de lutar, mesmo que muita gente considere ilusão sonhar com a fraternidade e a justiça. E que essa postura tenha como resultado uma nova esperança e o desejo mais profundo de paz.”

Por tudo isso, sigo confiante e trabalhando muito, sempre renovado e ainda mais comprometido pelas boas e generosas palavras daqueles que me apontaram os melhores caminhos. A minha presença, o meu destino no mundo têm a certeza de que esperança é garantia de viver. E que não se pode deixar de lado, nem por um segundo, a determinação em buscar a liberdade, a fraternidade e a justiça – parceiras inseparáveis da verdade.

50 anos de Jornalismo. Meio século de esperança, coragem, sonhos, trabalho e luta. Sinto a feliz certeza de que valeu a pena!

*Ricardo Viveiros é jornalista e escritor, tem 33 livros publicados em diferentes gêneros e prêmios no Brasil e no exterior. Dirige a RV&A – Oficina de Comunicação, uma das 10 maiores empresas de assessoria de imprensa do País.

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