Moreno, um jornalista muito particular

Eliane Cantanhêde

14 Junho 2017 | 19h14

Jorge Bastos Moreno foi um jornalista especial, que tinha uma maneira muito particular de cativar as fontes, todas as fontes, mas isso não significava passar a mão na cabeça de mal-feitos, nem de usar a proximidade para proteger uns e atacar outros. Ao contrário, ele adaptava na prática um velho princípio: amigos, amigos, notícias à parte.

Foi o repórter mais próximo e até assessor do Dr. Ulysses Guimarães, o “sr.Diretas”, que conseguiu ser, simultaneamente, presidente da Câmara, do PMDB e da Constituinte. E, apesar disso, também foi o repórter mais próximo de Tancredo Neves, o principal (e dissimulado) adversário de Ulysses no PMDB.

Moreno também colecionava presidentes. Foi muito próximo de Fernando Henrique Cardoso, tinha acesso a Luiz Inácio Lula da Silva, arrancava confidências pessoais da durona Dilma Rousseff e era interlocutor assíduo de Michel Temer. Sempre assim: falava com todos, mas sem compromissos. Antes de tudo, a notícia. Por isso, vez ou outra havia atritos, mas ele dava a volta por cima com sua imensa capacidade de sedução.

Em Brasília, sua casa no Lago Norte era um ponto de encontro suprapartidário, com políticos do PMDB, PSDB, PT, PC do B, que passavam o dia às turras no Congresso, mas conversavam civilizadamente e até trocavam informações nos jantares fantásticos que promovia, sempre com jornalistas dos mais diferentes órgãos de imprensa. De Antonio Carlos Magalhães, do PFL, a José Dirceu, do PT, ele não discriminava ninguém.


No Rio, em seus diferentes endereços, agregou uma outra “fauna” a esses jantares inesquecíveis: os artistas. Virou grande amigo de Gilberto e Flora Gil, Mariana Ximenes, Carolina Dieckman, que circulavam pelas salas, cozinhas e corredores como se estivessem em casa. Talvez estivessem mesmo, porque a casa do Moreno era a casa deles, de nós todos.

Grande jornalista, autor de furos memoráveis, foi também uma figura humana de enorme generosidade. Deu a mão e impulsionou a carreira de uma legião de jovens jornalistas que hoje brilham nas telas, nas páginas, nas rádios. Ah! E ele  próprio sabia se manter “up to date” e acompanhava com afinco a evolução tecnológica. Ao morrer, aos 63 anos, nesta quarta-feira, 14 de junho, brilhava no jornal, no rádio, no seu blog e em passagens memoráveis pela Globonews.

A morte do Moreno é uma perda imensa para o jornalismo brasileiro, numa hora crucial, mas para mim é muito especial, porque é a perda de um amigo de quatro décadas, de todas as horas. Uma tristeza profunda.

 

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