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Despedida

Dora Kramer

12 Dezembro 2016 | 15h24

 

Domingo escrevi a última coluna no Estado de S. Paulo, casa que me abrigou desde agosto de 2001 com carinho, respeito e reverência. Atitudes às quais espero ter correspondido. Minha partida, portanto, nada tem a ver com o jornal que por 15 anos considerou por bem dar a mim um espaço de opinião e interpretação no campo da política.

Vou a outras paragens para experimentar. Grata a quem me permitiu testar e consolidar a função de comentar e interpretar as coisas da política. Posso até não ter dado vexame no espaço que me foi aberto, mas se a chance não houvesse me sido dada, nada aconteceria.

Para ser fiel aos fatos a primeira oportunidade nasceu no saudoso Jornal do Brasil, em 1995, quando o Jornal do Brasil fez de mim uma aposta na coluna que havia sido de Carlos Castello Branco, o maior do Brasil. Por isso, ao agradecer ao Estado, agradeço também ao JB. Um talvez não tivesse acontecido sem o outro.

Diante de um caminho aberto, temos a opção de trilhá-lo ou de se desviar dele. Escolhi a primeira e não me arrependi. Na carreira que neste ano completa 42 anos tive alguns desafios. O mais definitivo e determinante foi transitar da reportagem ao colunismo. Não teria sido possível sem a autonomia assegurada pela forte convicção democrática das direções desses dois jornais: JB e o Estado.

No distante ano de 2001 iniciei com boa dose de descrédito pessoal a trajetória da qual ora me despeço. Considerava que minha linguagem talvez não se adaptasse ao público paulista, notadamente ao gosto daquele leitor de jornal cuja marca era a opinião contundente e austeridade no estilo.

Logo veio o doce e gratificante equívoco: nos demos muito bem. A insegurança inicial foi sendo substituída pela identificação. Com a linha de pensamento do jornal e com o abrigo carinhoso dos leitores.

Não todos nem sempre, claro. Nessa divergência ocasional residem a graça e a motivação. Fui feliz sem queixa alguma nesses anos. Ocorre que para o ser humano que não pretende estagnar é crucial se movimentar. É o que farei, sem prejuízo do reconhecimento do que se foi. Entre outros motivos, porque foi esplêndido. Notadamente pela independência garantida.

Os leitores para os quais escrevo de coração pleno, talvez imaginem que exista uma combinação previa, uma seleção de temas que podem ou não ser abordados, veto a isso ou aquilo, uma pauta estabelecida. Pois digo a vocês que nada disso existe, nunca existiu neste jornal. A liberdade de expressão, constantemente pregada nos editorais, é exercida na prática.

Nesses 15 anos, nem uma vez fui advertida ou pautada. Nunca a direção de o Estado interferiu. Seja pedindo a abordagem de um assunto ou impondo restrições a outro. A liberdade de expressão aqui é um exercício de fato. De onde, se está tudo tão bem, é de direito de quem consome esse produto de perguntar qual, então, a razão da saída.

Não é simples, embora compreensível. Vou enveredar por caminhos diferentes que,acredito e espero, sejam promissores. Nada que nos impeça de seguir nossa conversa, que já foi diária, mudou para duas vezes por semana e agora será semanal em outro cenário. Um desafio e tanto.

Quero agradecer à editoria de política do Estado, ao chefe da equipe, José Roberto Bombig, ao “big boss” da Redação, João Caminoto, a Antonio Carlos Pereira e aos demais colegas de empresa, cuja competência e elegância marcaram minha passagem pelo jornal. Grata, sobretudo, aos leitores, razão e motivação primordial desse fascinante ofício do jornalismo.

Até breve. Quem quiser me achar saberá onde. Abraço e também um beijo, Dora.