O Facebook pode eleger um presidente na França?
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Facebook pode eleger um presidente na França?

Sarkozy gosta de parecer moderno, e talvez a opção pelas redes sociais seja uma forma de reforçar sua imagem. Mas será que o melhor caminho para essa empreitada é se dirigir aos “amigos”, em vez falar aos compatriotas?

Redação

23 Setembro 2014 | 11h43

De Paris, Eduardo Muylaert*

Nicolas Sarkozy escolheu a via das redes sociais para ressuscitar. Depois de ter dito que abandonava a vida pública, ao ser derrotado por François Hollande em 2012, Sarkozy optou pelo Facebook para voltar à luta. Primeiro alcançou o número de quase um milhão de “friends”, o que lhe inspirou confiança. Possivelmente ele nunca tenha ouvido o comentário de que ter amigos no facebook é como ser rico no jogo de banco imobiliário.

Como primeiro passo de sua previsível volta à vida pública, quer recuperar a presidência de seu partido, a UMP, desagradando os outros pretendentes. Depois, bem, as eleições presidenciais de 2017 já estão na ordem do dia. “Likez-vous Sarkozy?”, pergunta a escritora Solange Bied-Charreton, no Fígaro (22/09/2014). A romancista indaga se o melhor caminho para essa empreitada é se dirigir aos “amigos”, em vez falar aos compatriotas. E aponta que, no facebook, só é possível dizer “like”, pois não existe a opção “eu não gosto”. Sob um ar democrático, assim, o funcionamento do facebook seria unilateral. Sarkozy gosta de parecer moderno, e talvez a opção pelas redes sociais seja uma forma de reforçar sua imagem nessa hora em que o presidente François Hollande, festivamente eleito em 2012, caiu em desgraça quase completa na opinião pública. A alternância no poder se anuncia, os socialistas aparentemente não têm como se recuperar, e Sarkozy está pronto para dar o golpe de misericórdia.

Depois do facebook, o ex-presidente voltou à televisão, em entrevista de domingo à noite, no importante jornal das oito do Canal 2. Aí, nem tudo são rosas. Segundo as pesquisas, ele é considerado determinado e corajoso, mas só 51% o acham convincente, ao passo que 49% acham o contrário. Descontada uma possível margem de erro, temos jogo empatado. É impressionante ver a França, berço do iluminismo, e um dos povos que foi mais refratário à internet, experimentar as redes sociais como peça importante da disputa política, ao lado – e no caso, antes – da televisão. Também no Brasil as redes sociais têm hoje um lugar central na disputa presidencial, mas ainda não chegamos a esse ponto de ousadia. Estamos de olho na nossa eleição, mas não custa ver o que se passa nos outros países.


*Eduardo Muylaert é professor associado da FGV Direito Rio.