Games e eleição, tem jogo?
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Games e eleição, tem jogo?

A mistura dos games com a política aponta para novas possibilidades no processo eleitoral.

Redação

09 Setembro 2014 | 16h46

Por Ivar Hartmann*

Um fenômeno cultural é tão mais rico quanto mais complexas e diversificadas forem as narrativas que são feitas a partir dele. Assim como a música e as artes cênicas, os video games são hoje um fenômeno cultural de grande riqueza.

Pessoas vivem por eles e vivem neles. Morrem neles e morrem – literalmente – por eles. Os video games já fazem circular mais dinheiro que a indústria de Hollywood. São usados para crítica social, proteção ambiental e naturalmente também para a expressão de opinião política.

O design dos games pode ser usado para passar uma mensagem. Já existem vários exemplos no Brasil de games criados especificamente com finalidade política, inspirados no Mensalão, criticando um partido (nas entrelinhas) ou um candidato. Ainda que desprovida de interatividade, mesmo a arrebatadora estética dos games é meio ilustrativo.

Esse é o primeiro passo. Mas a própria experiência compartilhada de jogar também pode ser transformada em narrativa. E as tecnologias que viabilizam isso têm valor cada vez mais alto. Assim como ler o mesmo livro aproxima irmãos, assistir juntos a um filme aproxima um casal, jogar junto pode aproximar o candidato do eleitor. E é isso que estamos vendo, possivelmente pela primeira vez no Brasil. Um exemplo é a campanha do candidato a deputado federal pelo PV, Eddy Antonini, que fala de sua plataforma e responde eleitores enquanto joga o bom e velho Sonic. Compartilhar a religião é uma boa maneira de conquistar eleitores hoje, mas dividir a tela em um jogo pode ser a melhor maneira de abrir o diálogo com os jovens que votam e aqueles que votarão no futuro próximo.

Um candidato a deputado por um partido conservador pode discutir o combate ao crime em meio a um round de Battlefield 4. Jogos de tiro muitas vezes atraem eleitores interessados na repressão da violência urbana, simpáticos ao direito de auto-defesa e ao porte de arma de fogo, bem como ao uso de meios menos ortodoxos na busca e apreensão de suspeitos de crimes. Já o candidato a vereador pode falar da valorização da prática de esportes na comunidade enquanto disputa uma partida no FIFA 2014. Iniciativas de inclusão de jovens desamparados frequentemente usam o esporte como atrativo, ponto de partida e caminho para o desenvolvimento sadio. Se a própria discussão dessas iniciativas começa em um campo virtual, pode ser ainda mais atraente para pais e adolescentes.

Os video games sempre permitiram isso. São inerentemente sociais: do fliperama às LAN parties, passando pelas tardes em casa com amigos em frente a um console. Mas a internet abre o jogo a milhões de eleitores. É outra escala. Muda tudo.

A mistura dos games com a política é apenas mais um fenômeno que ilustra o quanto a tecnologia pode mudar o processo eleitoral. Os eleitores – incluindo os mais jovens – estão sedentos por campanhas diferentes, que ofereçam um significado real a um diálogo real. Com o joystick, os candidatos.

*Ivar Hartmann é professor da FGV Direito Rio