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Cochichos eleitorais virtuais

31 julho 2014 | 23:49

As redes sociais possuem uma peculiar estrutura em rede, assemelhando-se muito mais aos encontros informais que aos espaços institucionalizados de difusão de ideias políticas

Por Fernando Fontainha*

Já imaginou uma mesa de bar onde estejam sentados todos os seus parentes, amigos e conhecidos ao mesmo tempo? Já imaginou, nesta mesa, poder externar a sua opinião política imediatamente para todos, quantas vezes você quiser? Pois é, estas mesas existem: são as redes sociais!
Eduardo Campos e Marina Silva que o digam. A campanha deles inovou ao lançar recentemente um aplicativo que permite a qualquer simpatizante difundir conteúdos da campanha através do seu perfil no twitter ou no facebook. Mas será que as redes sociais têm potencial para exercer influência decisiva no resultado de uma eleição?
O Brasil terá sua primeira experiência de impacto nestes próximos meses. No entanto, experimento conduzido por Sinan Aral, professor do Massachusetts Institute of Technology, durante as eleições congressionais americanas de 2010, demonstrou que uma mensagem no facebook influenciou decisivamente o comportamento eleitoral de milhões de pessoas. Como?
As redes sociais possuem uma peculiar estrutura em rede, assemelhando-se muito mais aos encontros informais que aos espaços institucionalizados de difusão de ideias políticas. Cada um conectado a seus “amigos” e “amigos dos amigos”, o que ocorre é o aumento das influências pessoais na opinião política. Determinada informação ou ideia chega ao eleitor por meio de alguém que ocupa um lugar palpável na sua rede de relações, mobilizando afetos e sentimentos pessoais.

Divulgação

Se as redes sociais possuem semelhança com nossos encontros informais cotidianos, também possuem diferenças. Podemos apontar ao menos três: 1) Alcance – elas permitem que a opinião individual seja veiculada para toda a sua rede instantaneamente; 2) Facilidade – a rede relativiza a necessidade de encontros face a face; e 3) Forma – ela leva a influência política do registro oral para o escrito (até imagético e audiovisual).
Recentemente o TSE decidiu que manifestações no twitter não configuram campanha eleitoral. O ministro Dias Toffoli comparou um tweet com um “cochicho”, e a ministra Carmen Lúcia com uma “mesa de bar virtual”.
Sabemos que as redes sociais não são nem um nem outro. Elas são outra coisa. É cedo para dizer quais novas práticas e tecnologias irão fazer a diferença nesta eleição. Enquanto buscamos definições precisas, é importante manter livre este espaço que sem dúvida dinamiza a vivência democrática pela aproximação entre a política e o cotidiano.

*Fernando Fontainha é professor da FGV Direito Rio