A jornada do herói eleitoral
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A jornada do herói eleitoral

Marina caiu, Dilma estancou, Aécio subiu. Ou vice-versa, o suspense cresce. Que tal dar uma olhada na campanha como se fosse um roteiro, com heróis e vilões, alianças e armadilhas, e, no final, um só vencedor? Daria um fantástico filme, livro, série de TV ou videogame. Melhor ainda, uma eleição memorável.

Redação

01 Outubro 2014 | 10h32

Por Eduardo Muylaert*

O suspense é da essência da obra de ficção, sem ele abandonamos o livro ou o filme. Também na campanha eleitoral, o suspense é ingrediente indispensável. Cada pesquisa é mais esperada do que o resultado da Mega-Sena, e os resultados incendeiam os comitês e as redes sociais.

Que tal analisar a campanha a partir das fórmulas que garantem o sucesso dos best-sellers e dos filmes de Hollywood?

Em sua Jornada do Escritor, Christopher Vogler[1] relaciona os 12 passos da trajetória do herói, presentes nas obras dramáticas, de amor, e até nos ritos religiosos. Tudo começa com O Poder do Mito, célebre estudo de Joseph Campbell[2], que incorpora os arquétipos de Jung e define o herói como a pessoa que sai do comum, enfrenta uma luta  e realiza grandes feitos em benefício de um grupo, tribo ou civilização.

Vogler, consultor de filmes como A Lenda de Beowulf, Hancock e 10.000 A.C., vê permanência nos antigos padrões e na sabedoria dos mitos da antiguidade, que ainda servem aos nossos heróis de hoje, da ficção e da vida política.

Uma “estória” é um design em que bastam 5 partes, segundo Robert McKee[3]: o incidente iniciante, o primeiro evento da narrativa, é a causa primária de tudo o que segue, colocando os outros quatro elementos – complicações progressivas, crise, clímax e resolução, em movimento.

A entrada de Marina na eleição de 2014, do modo como ocorreu, deu um tom de suspense ao que parecia previsível e insosso. Um evento inesperado, trágico mesmo, levou a um chamado para a “aventura”, tirando-a do mundo comum. Depois de fugir ao chamado, ouve a consciência e quer lutar contra o atual estado de coisas. Passa o primeiro limiar, enfrenta armadilhas e adversários, mas conquista aliados. A pesquisa e as fantasias que criam a seu respeito parecem as maiores provas a enfrentar. Quando tudo parece ir bem, novos obstáculos. Tudo parece desmoronar, em certos momentos, mas a ressurreição é possível. Conseguirá Marina chegar ao elixir que salvará seu povo?

Não sou eu quem escreve esse roteiro, ele está acontecendo de verdade e, ao seu modo, Dilma e Aécio também percorrem um caminho parecido, embora menos inesperado, a não ser nos números.

Por ora, a opinião pública, a mesma que grita nas redes sociais e é desvendada nas pesquisas – decifra-me ou te devoro – é quem está pontuando os altos e baixos da jornada. Logo mais, no dia 5 de outubro, o eleitor vai decidir o final do primeiro volume, digo, primeiro turno. Aí, começa a batalha final. Que vença o melhor, cada povo tem o herói que escolhe. Ou melhor, que elege.

 


[1] Christopher Vogler, A jornada do escritor, Estruturas míticas para escritores, tradução de Ana Maria Machado, Editora Nova Fronteira.

[2] Joseph Campbell, O poder do mito, tradução de Carlos Felipe Moisés, Editora Palas Athena.

[3] Robert McKee, Story, Substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro, tradução Chico Marés, Editora Arte e Letra.

 

*Eduardo Muylaert é professor associado da FGV Direito Rio.

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