Crise na segurança pública põe ministro da Justiça na berlinda

Crise na segurança pública põe ministro da Justiça na berlinda

Em reunião tensa, presidente da Câmara pediu a Torquato que não se intrometesse em conversa

Andreza Matais e Naira Trindade

16 Fevereiro 2018 | 12h40

Ministro Torquato Jardim (Justiça)

O governo está insatisfeito com o ministro da Justiça, Torquato Jardim, e fala com cada vez mais frequência em exonerá-lo do cargo. Quando assumiu a pasta, Jardim declarou que não entendia nada de segurança pública. “Minha experiência na segurança pública foi ter duas tias e eu próprio assaltados”, disse no dia da posse, em maio de 2017. O ministro é especialista em direito eleitoral.

Agora, quando o governo chegou ao extremo de ter que intervir na segurança pública do Rio, interlocutores do presidente Temer querem creditar na conta de Torquato a responsabilidade pela situação de descontrole, especialmente nas fronteiras, porta aberta para drogas e armas no País.

Um dos problemas é que a Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), subordinada ao Ministério da Justiça, nos últimos anos se resumiu a Força Nacional de Segurança. Especialistas dizem que a política nacional de segurança não existe porque o órgão que era para ser de formulação perdeu esse foco e passou a ser de execução.

O clima esquentou nesta madrugada durante a reunião no Palácio da Alvorada em que se decidiu decretar a intervenção no Rio. Segundo relatos de mais de uma fonte, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), estava muito nervoso e teria mandado Torquato calar a boca num dos momentos mais tensos da discussão dizendo que ele não teria moral para falar de segurança pública.

Procurado, Maia disse que não cometeria tamanha indelicadeza e contou sua versão. “Ele quis se meter numa conversa minha com o (Raul) Jungmann. Eu disse: – Não se mete. Você até agora não ratificou o que disse no ano passado, então deixa eu discutir aqui com o Jungmann.”

Maia se refere à declaração de Torquato que causou polêmica no ano passado de que o alto comando das polícias no Rio é sócio do crime organizado com a anuência de deputados estaduais. “Todo mundo sabe que o comando da segurança no Rio é acertado com deputado estadual e o crime organizado”, afirmou em outubro.

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O nome mais cotado para assumir a vaga de Torquato é o sub-secretário de assuntos jurídicos de Casa Civil, Gustavo Rocha. Ele é um dos interlocutores mais próximos do presidente Temer atualmente e tem ótima relação com lideranças do Congresso. Rocha tem dito que não vai deixar o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP ) para ocupar um ministério.

Para o Ministério da Segurança Pública, que será criado, o nome preferido do governo é o do ministro Raul Jungmann (Defesa), mas ele não sabe se irá disputar a eleição deste ano — o que o inviabilizaria para o cargo — e o governo tem dificuldades em substituí-lo na Defesa. A lei eleitoral determina que os candidatos se desincompatibilizem até 7 de abril.

José Maria Beltrame, ex-secretário de segurança do Rio no governo Sérgio Cabral, não está na lista. No Planalto, Beltrame nunca foi unanimidade nem entre deputados do DEM e do MDB do Rio. Uma crítica a ele é que não assumia as falhas no seu plano de segurança no Rio jogando a responsabilidade para o governo federal. (Andreza Matais e Naira Trindade)