Uma cilada para Michel Temer

As dificuldades para o vice são notórias, sobretudo, quando seu virtual mandato não possui a aura da tragédia ou do destino.

Carlos Melo

24 Abril 2016 | 09h19

Publicado pelo Caderno “Aliás,” de domingo, 24 de Abril, com o título “Aura de vice”

Embora o senso comum, travestido de crença, afirme que impeachments são festas da democracia, o quadro nacional está longe da animação. Nesta quadra da história, por falta de um presidente, o país convive com dois: Dilma Rousseff, de direito, de fato e por enquanto; e Michel Temer, na expectativa. Este já discute o ministério, seus desafios e seu labirinto. A situação é esdrúxula: quem tem dois, não tem nenhum. O país permanecerá neste quadro de esquizofrenia por mais algum tempo; meses, talvez.

Não se trata de “duplicidade de comando”. A soma, ao final, resulta em zero. O vazio é evidente. Dilma deixou de ser presidente há algum tempo, quando não conseguiu nomear ministros da Justiça, quanto mais dar abrigo ao ex-presidente Lula; hoje, Dilma diz “faça” e ninguém faz. Mas, tampouco, Temer preenche o vácuo a sua frente.

O poder carece de algo mais que áulicos e expectativas; requer certa aura. O vice veio à cena sem um drama que o abraçasse e conduzisse: não foi a morte do titular – Sarney (1985) –, nem as mãos do destino, que faz coincidir a biografia com a história – Itamar e o “impeachment de união nacional” (1992). Eis seu problema: Temer, antes de paciente dos fatos, foi ator; agente, mais que contingente.

Em certa medida, isto solapa o chão sob seus pés. A lógica é simples: bem ou mal, Dilma tem o apoio de 20% dos brasileiros e possíveis 80% contra si. É pouco, mas com quanto de apoio popular  Michel Temer poderá contar? De saída, com 20% negativos, sem que possa se fiar nos 80% restantes porque lhe falta a robustez da representação, a solidariedade da tragédia ou a aura da fortuna.

Ninguém foi às ruas por seu nome e não há drama que o justifique. Pelo menos até aqui — como Eduardo Cunha –, Temer foi o preço a pagar por quem pretendia se livrar de Dilma e do PT. Mas, a troca do PT pelo PMDB não traz ganho moral, nem implica mudança de métodos; não traz a renovação pedida pelas ruas.

De modo que Michel Temer é ainda e tão somente aposta de que a substituição de Dilma possa significar a emergência de mais eficazes operadores do sistema – o mesmo sistema -, capazes de aprovar uma agenda e reverter expectativas. Mas, para isto, a astúcia pode não bastar sem o suporte político da ideia da mudança e renovação.

Ao agir nos bastidores e explicitamente fora deles, o vice permitiu que a brisa da suspeita o abraçasse. Seria como se Sarney anunciasse ir à missa rezar pela morte de Tancredo. O real ou suposto bafo da conspiração retirou do virtual presidente a aura tanto da isenção quanto da predestinação, deixando-o vulnerável à mais críticas do que seria comum a “o eleito pela sorte”, o presidente incidental.

Dilma é capaz de, pelo menos, intuir isso tudo. Uma vez afastada para se defender, irá o ataque para voltar. Na condição de pedra, não mais vidraça, ela, o PT e seus aliados aproveitarão a vulnerabilidade de Temer. Cada revés na condução da política e da economia será ponto para os adversários. Temer não terá mais do que 100 dias para acertar o rumo e indicar as qualidades que detém. A história dirá se possui estatura política para isto.

Provavelmente, terá melhores condições de governabilidade que a antecessora. Seu time, com efeito, parece mais apto e profissional e, com as vagas do PT, poderá se fiar numa mancheia de cargos para convencer e alinhar parlamentares. Todavia, não poderá contar com a euforia ou a tolerância que o país teve com Sarney ou Itamar. Os tempos são de maior crise econômica e os humores mais ácidos e corrosivos.

Será instigado a mudar a lógica do sistema político – fisiológico, paroquial e constrangedor – e, ao mesmo tempo, pressionado para que nada altere, pois foi o próprio sistema que o carregou ao poder — não as ruas. Andará no fio da navalha para cortar gastos e, também, proteger políticas sociais. Dirá basta ao balcão de negócios que estimulou num processo que tanto quanto de um impeachment foi também de disputa eleitoral?

Para opinião pública, questão de honra será preservar a Operação Lava Jato, assim como jogar ao mar os cadáveres de Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Romperá com seus aliados? Nada fazer será entendido como cumplicidade; mas, faze-lo implica o risco da perda apoio.

Na economia, não poderá fazer tudo, não resolverá todas as mazelas pendentes, é claro. O que fizer será incremental. Mas, apontar caminhos, encaminhar reformas e começar a inverter as trajetórias descendentes das curvas dos principais indicadores econômicos será imperativo. Precisará indicar a retomada de perspectivas e rumos que se haviam perdido. Resgatar a autoestima.

Nada, porém, será indolor: o ajuste é, simultaneamente, tão inevitável quanto impopular. Se mais profundo, mais rápido sairá dele. Mas, o aprofundamento da recessão será ao mesmo tempo música para o PT. Em até 180 dias, o desgaste do vice será a vitamina, o mingau da vingança, da presidente eleita. A ousadia pode salvar Michel Temer, mas, ao mesmo tempo, ser sua ruína. É uma cilada lógica e política. A tensão e a esquizofrenia tendem a continuar.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

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