Muito além do jardim

Pedalando sua bicicleta, a presidente tem a ilusória impressão de fazer movimentar o mundo.

Carlos Melo

08 Junho 2015 | 08h32

Em “Muito Além do Jardim”, o ator britânico Peter Selles desempenha seu mais extraordinário papel, vivendo a estória de um personagem que passa toda a vida recluso a uma casa, cuidando de seu jardim; não tem existência social, nem política, sequer legal. Seu contato com o mundo se resume à TV, que assiste. Mais, tarde quando descoberto – em virtude da morte do patrão –, responde por meio de lugares-comuns e clichês que retirou da televisão. É, então, inadequadamente, confundido com um gênio.  O filme é triste, embora se trate de uma comédia; o alheamento do protagonista é revelador da solidão e também da ignorância de um mundo que carece de inteligência.

Observando as imagens da presidente Dilma pedalando sua bicicleta ao redor do Palácio, foi inevitável lembrar de Peter Sellers, em “Muito Além do Jardim”. A presidente parece igualmente só, isolada mesmo; sem identidade social e política. Está reclusa, não vai às ruas, mesmo a casamentos chiques não pode ir. Desistiu de aparecer na TV por conta do efeito de panelaços que sua imagem produz. Cercada por seguranças, resta-lhe pedalar sua bicicleta ao redor do Palácio, nos jardins da residência oficial.

Talvez, nem seja tanto assim o seu alheamento, mas a imagem tem força de uma revelação: Dilma sem ânimo para reagir, incapaz de enfrentar a plateia; pedalando a bike ilude-se na impressão de que faz o mundo rodar sob seus pés. Mas, na verdade, está só e imóvel. Como na poesia de Drummond, “a noite esfriou, o dia não veio (…) não veio a utopia e tudo acabou, e tudo fugiu e tudo mofou”. E a identidade política murchou, e as vacas tossiram, e tudo parece se resumir a essa  defensiva prisão política que tem na bicicleta contida aos jardins o símbolo de movimentos apenas ilusoriamente amplos, mas limitados na verdade.

Não se trata de discutir o justo, o certo ou o errado da situação; se, em resumo, os governos do PT fizeram mais bem ou mais mal ao país. Política nunca é justa. E, ademais, anjos decaídos são anjos mas também decaídos; anjos decaídos e ponto! Feita de versões, a história é a versão que mais emplacou e aquela que constará nos livros. A menos que consiga provar o contrário, a versão corrente hoje é muito ruim para o PT, Dilma e Lula, que vivem o pior momento de suas histórias: a presidente está só; o partido, atabalhoado, busca em desespero a coerência perdida. Ambos vivem a vertigem de um ônibus desgovernado — até por isso a preferência pela bicicleta.


E Lula, é claro, tampouco está isento disso. Recentemente, revi o filme “Peões”, de Eduardo Coutinho. É ao mesmo tempo emocionante e triste: Lula faz parte da história do Brasil, irremediavelmente. E já o faria mesmo sem a presidência da República. No documentário, emerge do depoimento de seus ex-companheiros como herói, sábio, deus. Traduz a luta dos humildes e também suas esperanças. O filme é de 2004. Mas, é triste perceber que aquele Lula é, como tudo na vida, datado. Aquele tempo, obviamente, também. Tudo mudou e os sonhos, se é que se realizaram, se realizaram apenas parcialmente – ainda que sonhos parciais não possam ser desprezados. A inclusão, de fato promovida, será sustentada  e sustentável?

A cultura política do país não mudou: o mesmo patrimonialismo, a mesma sanha de poder – que faz os anjos decaírem.  Sem mudanças estruturais, o ajuste fiscal chegou “impávido que nem Muhammed Ali”, mas de modo algum “tranquilo e infalível como Bruce Lee”.; é um remendo no pano roto que o PT só fez ampliar. Gostemos ou não, ao longo de mais de uma década, a direção do PT se rendeu aos “usos e costumes” da real politique. Muitos de seus quadros parecem ter feito tudo aquilo que um dia imaginaram que os adversários fizessem. Deu no que deu. Se é verdade que os adversários realmente faziam – e é plausível que o fizessem –, o mais condescendente comentário que se pode fazer a respeito do PT é que “malandro é malandro e mané é mané”. Não tem jeito de ficar bem na foto.

É doloroso porque nisso tudo tem muita sente séria que não meteu a mão nos estrume, que foi de boa-fé, que deu seus melhores anos. Uns ideologizados, outros nem tanto.  Ambos militantes. Mas, a militância não basta. E hoje aquela parcela que não depende dos cofres públicos se afasta ou – alguns — resiste com argumentos frágeis buscando retornar as bombas caídas no seu quintal, para o quintal da oposição. Não parece ser um bom raciocínio apenas admitir que a oposição, no poder, também é assim. Admitindo que fizeram o mesmo, são réus confessos. Só isso.

Voltando a Lula, o herói de antanho: o antigo metalúrgico e experiente político sabe que está numa enrascada. A massa de humildes sempre foi sua força e sua proteção; o tal e suposto “dispositivo popular” do PT, por muitos anos, foi sua blindagem. “O que fazer quando Lula colocar sua massa na rua?”, perguntavam-se as tais das elites. Mas, depois de 12 de março de 2015, quando o “exército do Stédile” não foi às ruas – ou foram uns gatos pingados, muitos às custas de “quentinhas”–, se percebeu que também Lula começou a ficar só; um tigre banguela? Em tempo de Lava Jato, o pesadelo consiste em sentir a lâmina aproximar-se do pescoço, sem defesa.  DE volta à poesia de Drummond: essa “Minas não há mais”; a força mingou.  E agora, Luís?

Hoje, o apoio ao governo do PT resume-se a algo ao redor de parcos 10%, os congressos do partido estão esvaziados; prefeitos pedem que seus diretórios municipais os expulsem como forma de se desvencilharem da legenda; os primeiros ratos sentem o cheiro do naufrágio e se retiram. Neste contexto, Lula, o PT e Dilma sentem que precisam recuperar a massa e que necessitam de um discurso de esquerda e de abrigo social para a massa que, somente ela, poderá abriga-los. A força da massa na rua, forçando o recuo dos adversários, o pacto, a conciliação diante da tal “correlação de forças”. Política clássica e manjada: saída pela esquerda.

Mas, como fazê-lo se, ao corrigir os erros do governo – ajustando também programas e políticas públicas –, retira-se direitos, corta-se recursos, escasseia o colchão de proteção social em que dormiram e sonharam pobres e militantes? Como sinais são um desastre em ano pré-eleitoral: cortar pensões e o seguro desemprego, reduzir verba para educação e saúde?!?!

Como compensação restaria o surrado discurso ideológico que, defensivo, precisa pelo menos fingir que foi ao ataque. Demonstrar que também houve aperto aos “de cima”: impostos sobre lucros e fortunas. Algo contra-produtivo, quando se quer recuperar credibilidade e investimentos, mas uma necessidade de quem precisa de, pelo menos, uma tangente retórica.

O ajuste fiscal parece ser, então, tão inevitável quanto fatal. Inevitável para o governo, fatal para o PT. Se não se faz, a economia afunda – e com ela toda a sociedade; se o faz, a sociedade que referendou a experiência petista afunda primeiro. Claro, o ajuste pode trazer, lá na frente, a recuperação geral, a retomada do crescimento econômico e social. Mas, seu tempo político, lento e gradual, é uma tragédia para Lula e para o PT suas centenas de prefeitos e milhares de vereadores. No longo prazo, é possível que estejamos vivos, mas nessa fórmula o PT morrerá antes. A equação contrária consistiria na hipótese de que todos morramos para que o PT sobreviva e agonize por mais tempo.

Difícil dizer. Uma canção de Lenine, cantor o homônimo do mito de tantos petistas, afirma com precisão: “ninguém faz ideia do que vem lá”. Ninguém faz. Só os charlatães arriscam palpite. Mas, há muitas variáveis sem controle e toda essa turbulência não encontra coordenação central para contê-la. O fato é que Lula, PT e Dilma estão numa cilada lógica: um ajuste tão inevitável quanto fatal.

Este parece ser o mundo além do jardim de Dilma, que no  entorno de seu palácio pedala as angústias remoendo erros ou regurgitando os sapos que tem engolido. Busca encontrar, na bike, o equilíbrio que parece ter-lhe faltado no exercício da presidência, na eleição e no pós eleitoral; procura o movimento sincronizado e constante que perdeu nas incontáveis trapalhadas que patrocinou nesse início de segundo mandato. Será isso mesmo, ou estará tão alheia quanto o personagem de Peter Sellers? Só a história dirá o que vem lá!

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.