Garantia de nada

Sobre a reforma ministerial da presidente Dilma. Reforma?

Carlos Melo

05 Outubro 2015 | 08h46

A presidente comprou tempo; este é o sentido de sua dramática e atabalhoada reforma ministerial. Para isto, precisou ajustar-se com quase todo o arquipélago de grupos do PMDB e ceder a Lula — de quem sonhou libertar-se — boa parte do controle do governo. De certo modo, Dilma vai renunciando, aos poucos.

Não há reinvenção: a substituição de Aloízio Mercadante, na Casa Civil, busca amainar resistências ao estilo de imperial do governo – política não combina com soberba; e Dilma, perde, agora, mais um escudo. A atração do time B do baixo clero não aglutina a base, apenas tenta garantir 172 almas para impedir o impeachment. Retomadas de maioria e iniciativa não estão no horizonte.

É possível que, eufórica, a base dance em torno da cabeça de Mercadante, como num ritual de recomeço. E é provável que Jacques Wagner não quebre tanta louça, dando freio à teimosia de Dilma. Não surpreenderá que acordos fluam e os novos ministros, por determinado tempo, consigam persuadir colegas de parlamento prometendo recursos antes negaceados – que de resto, não existem. Lula e o PT igualmente podem render a Dilma alguma trégua, ainda que mantenham Joaquim Levy sob alça de mira.

Mas, tudo é garantia de nada. Primeiro, porque la donna é móbile – desconfia-se que ao menor descuido, Dilma volte ao comportamento padrão; ficará com rédeas curtas. Depois, porque a economia não melhorará na velocidade necessária: no curto prazo, o desemprego tende aumentar; empresas, a perder valor; renda, a diminuir. A reforma não será capaz de deixar a presidente mais simpática.


Considerável é a probabilidade de que, em breve, o desgaste de Dilma volte a bater às portas do Congresso. Políticos são suscetíveis à críticas e à oportunidades. O PMDB sabe disso. O país parece condenado a alternar momentos de crise crônica e crise aguda.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.