Esfinge devoradora

Artigo que publiquei no "Caderno Aliás,", do Estadão, de 08.02.2015. Trata do PMDB e seu espírito.

Carlos Melo

11 Fevereiro 2015 | 11h46

Trata-se de um todo contraditório: o PMDB espelha parte da história da redemocratização do país, mas também do processo de degeneração do sistema político nacional. Seu apetite por cargos e recursos é voraz; sua disposição e expertise para arrancar concessões e recursos dos governos se iguala em habilidade e frieza a jogadores de pôquer. Ao contrário do PT, é um campo de profissionais; sua visão reside na perpetuação do próprio poder; e levar o baixo clero ao paraíso. O PMDB não é para principiantes.

Há anos, o partido se desenvolve num movimento desigual e combinado: federação de grupos, suas áreas são diversas, contraditórias e divergentes. Mas é a diversidade que mantém a unidade e a perspectiva de poder que o amálgama. Notável a capacidade que possui de representar grupos particularistas e satisfazer interesses restritos, nem sempre claros ou visíveis. É importante compreender o engenho e a arte desse seu dividir para somar.

Em 2002, por exemplo, o partido esteve oficialmente com José Serra, na candidatura à presidência da República — Rita Camata (ES) foi sua vice; outra banda namorou a possibilidade de Lula finalmente ser eleito. Vitorioso Lula, os vencedores do PMDB resgataram os derrotados do partido. Em 1998, ameaçando a reeleição de FHC, a legenda flertou com Itamar Franco, deixado no sereno, após acordo com os tucanos. Em 2006, para assombrar a reeleição de Lula, o instrumento foi Anthony Garotinho. Ameaças assim rendem bons acordos e espaços crescentes no governo dos outros.

A mecânica é simples: partido de numerosa bancada assume centralidade no jogo da governabilidade do presidencialismo de coalizão. Além de tempo de TV, a grande bancada oferece apoio e blindagem, mas reivindica — e recebe — uma mancheia de ministérios e recursos que beneficiarão grupos e municípios, elegendo centenas de prefeitos que, mais adiante, elegerão uma nova e relevante bancada. Bancada-ministros-prefeitos-deputados-TV-bancada: ciclo vicioso para o país, mas virtuoso para partidos, quase todos como o PMDB.

Não importa quem ganhe ou perca a eleição, o PMDB sairá vitorioso, sempre. É sua natureza. Por arriscado e custoso, eleger presidentes da República interessa pouco. Nem Sarney, seu presidente de honra, era PMDB; foi Ulysses Guimarães o poderoso do período. Na era FHC, o partido incorporou-se ao governo; com Lula, o veto presidencial à sigla fez com que José Dirceu se embrenhasse na vereda do mensalão. Por gravidade, Lula caiu no colo de Renan, Sarney e companhia. Para Dilma, Michel Temer é fatalidade difícil de assimilar, mas impossível de descartar. Somente Collor resistiu realmente ao PMDB. Sabe-se no que deu.

A fórmula de sucesso se espalhou por todos partidos de alguma relevância no complicado enredo do presidencialismo de coalizão. Nas últimas eleições, a bancada peemedebista até se reduziu. Mas sua cultura, como gás, se libertou e se expandiu, sublimou-se. Mais que um partido, o PMDB é um espírito. Eduardo Cunha é um parlamentar multipartidário, despachante do interesse de várias bancadas — na oposição e no PT, inclusive. Não se trata de líder político clássico, capaz de expressar programa e projeto. É, antes, um objeto; o primus inter pares de um parlamento cuja estatura encolheu.

Desinteligência e teimosia se misturam e a história patina. Intolerantes não só com as leis de mercado, a presidente Dilma e seus conselheiros parecem ter ojeriza também à implacável lógica dessa política. Na disputa pela presidência da Câmara, pretendendo esvaziar e descartar o aliado rebelde, agiu como uma curiosa espécie de franco atirador que dispara tiros nos próprios pés e que frequentemente acerta o alvo. Ao tentar romper o ciclo vicioso do peemedebismo, recorreu aos instrumentos que censurava no adversário: ofereceu cargos e verbas; perdeu o respeito e o discurso. Com Gilberto Kassab, imaginou criar um outro PMDB para chamar de seu. Saiu ainda mais vulnerável e suscetível ao jogo de pressão e chantagens.

A negociação de parte da agenda do ajuste fiscal fica, assim, mais dependente dos apetites do Congresso; certamente, mais custosa: o saldo do esforço fiscal de Joaquim Levy pode resultar em muito pouco. Ademais, as delações premiadas estabelecem um clima de imprevisibilidade: “fim de governo”, “impeachment”? O desembaraço com que se fala já é mau sinal. Mas, só mesmo o desenrolar do novelo da política é que dirá. O certo é que Dilma necessitará do mais alto grau da habilidade que parece lhe faltar.

Mais certo ainda é que muito disto tudo passará pelo humor do novo presidente da Câmara, um negociador implacável, sabedor do que quer e pouco condescendente com inimigos ou apelos emocionais. Possui, ao que parece, telhado de vidro, mas é dono de uma perspicácia pouco comum para o atual padrão da politica nacional; ousado, chama atenção pela capacidade de se antecipar. Será, enfim, um jogo de nervos. À presidente, pouco política, nada valerá reagir com impaciência. Precisará dominar seu asco; errar muito menos. Decifrar a esfinge do peemedebismo, confiar na sorte. E não ser devorada.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

(Publicado no “Caderno Aliás,”, Estadão, 08.02.2015)