Duas versões para a mesma crise

Duas versões de um mesmo artigo para o resultado da eleição: mudam os atores, muda-se as vontades; não mudam os problemas.

Carlos Melo

27 Outubro 2014 | 11h18

Na sexta-feira passada, a  moçada da Editoria de Política, do Estadão, pediu um artigo para hoje, segunda-feira, dia seguinte à eleição. Queriam uma análise sobre o quadro e os desafios do novo mandato. Incapaz de prever o resultado, resolvi, é claro, escrever duas versões: a “Versão Dilma” e a “Versão Aécio”.

Fiz um texto em 4 parágrafos. E percebi que dois deles: o primeiro — o quadro de terra arrasada da eleição — e o último — os desafios do(a) próximo(a) presidente — não mudariam qualquer que fosse o eleito, ou mudariam muito pouco. Diferentes seriam mesmo os dois parágrafos do meio, o das condições específicas de cada um.

No domingo, o eleitor escolheria a “Versão Dilma” e foi este que o jornal publicou em seu impresso de hoje.

Creio que estamos fazendo história — mesmo sem perceber que a fazemos –, e por isso, aí embaixo publico as duas versões que produzi, para que o leitor perceba o tamanho dos problemas; a dificuldade do país. Fosse um sujeito desses modernos, de informática, diria que o hardware é o mesmo para os dois; os softwares é que são diferentes. Como sou um tipo mais antigo, digo apenas que mudam as moscas.


Vamos em frente — sem saber ao certo para onde!

 

VERSÃO DILMA

Que não haja ilusão: a eleição não somou, dividiu — se não fragmentou. Qualquer que fosse o resultado, seria assim: agora, o desafio para reunir os cacos do diálogo e de algum consenso que a intemperança dos últimos tempos estraçalhou. A oposição teria sinal trocado, apenas; mas igualmente de dedo em riste e faca nos dentes; ressentida, esperando a volta. Que não haja ilusão: o pleito definiu o vencedor ao estilo Machado – “ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”. Esta é uma eleição que não termina com a votação, continua hoje seguirá e pelo amanhã, com temperatura e pressão elevadas.

A presidente reeleita não é a Dilma de 2010, cercada de boa vontade e esperança. As expectativas a respeito de seu novo governo são defensivas: defender o emprego, a inclusão, o partido; defender o governo. Terá a desconfiança de setores econômicos que não se limitam aos “banqueiros”, demonizados na campanha. Há também a classe média, a mídia, os críticos melindrados. E, claro, um Congresso mais fisiológico e fracionado por interesses diversos, divergentes, difusos; com muito menor margem fiscal para alimentar e saciar apetites fisiológicos.

Atender e recompor a credibilidade demandará morder a língua, desdizer o que se disse; capitular ao inimigo que venceu. Há pouco espaço politico para isso, pois a base social, criada e cevada na crença de soluções simples, não compreenderá a complexidade da política, obliterada pelo debate. Dilma não é Sarney, para, no dia seguinte, praticar estelionato e passar o resto do mandato com cara de paisagem. Seus custos e princípios são maiores. Ao mesmo tempo, fazer suavemente o ajuste não contornará os espíritos mais sectários. “Crise” é o nome dessa sinuca.

Os desafios econômicos são grandes, mas os obstáculos políticos são maiores ainda — a política mal manejada pode pôr a perder avanços econômicos. Limitar o necessário ao medíocre possível não é mais saída; cindido, o país pressionará por mudança logo. O desafio requer uma presidente que de modo algum aguce divergências e divida a galera em duas torcidas, mas que recomponha a difícil unidade do cristal trincado. Que não haja ilusão, o país carecerá de liderança política de altíssimo nível. Para isto, a presidente terá que reinventar a si mesma.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

VERSÃO AÉCIO 

Que não haja ilusão: a eleição não somou, dividiu — se não fragmentou. Qualquer que fosse o resultado, seria assim: agora, o desafio para reunir os cacos do diálogo e de algum consenso que a intemperança dos últimos tempos estraçalhou. A oposição teria sinal trocado, apenas; mas igualmente de dedo em riste e faca nos dentes; ressentida, esperando a volta. Que não haja ilusão: o pleito definiu o vencedor ao estilo Machado – “ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”. Esta é uma eleição que não termina com a votação, continua hoje seguirá e pelo amanhã, com temperatura e pressão elevadas.

O presidente eleito, Aécio Neves, contará com apoios da classe média, da mídia, do mercado. Mas, contra si terá o peso da desconfiança de grande parcela temerosa de seu ajuste; uma oposição ressentida e mobilizada por movimentos e corporações desalojados, no novo governo; mais organizada e orgânica do que enfrentou FHC, em seu tempo. Com mais recursos e conhecimento; mais rancor e plena de desejos de voltar, em 2018. Ao mesmo tempo, um Congresso cevado no fisiologismo, fragmentado e insensível a apelos fiscais, por mais racionais que sejam.

Se o ajuste é inevitável e fundamental, também serão reais seus efeitos colaterais deletérios: cortes, fim de incentivos e privilégios que – no curto prazo, pelo menos – afetarão também os empregos. Os efeitos sociais que despertarão já nos primeiros tempos a saudade e a impressão de que nos governos anteriores tudo era melhor. A agenda positiva de Aécio pode ser atropelada pela agenda negativa paralela e igualmente inevitável. Ajustar é preciso, mas sobreviver é igualmente necessário: tudo será mais cuidadoso, por isso lento e incremental do que o prometido.

Os desafios econômicos são grandes, mas os obstáculos políticos são maiores ainda — a política mal manejada pode pôr a perder avanços econômicos. Limitar o necessário ao medíocre possível não é mais saída; cindido, o país pressionará por mudança logo. O desafio requer um presidente que de modo algum aguce divergências e divida a galera em duas torcidas, mas que recomponha a difícil unidade do cristal trincado. Que não haja ilusão, o país carecerá de liderança política de altíssimo nível.  O novo presidente rapidamente terá que provar que a possui.

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.