Usando Nudge no setor público brasileiro

Humberto Dantas

18 Maio 2017 | 20h36

Autoria de: José Moulin Neto, engenheiro pela UFRJ, com MBA pela Wharton School, Universidade da Pensilvânia e líder MLG. Tem 20 anos de experiência em consultoria de gestão e estratégia em vários países. Nos últimos dois anos estruturou vários projetos Nudge para diferentes governos, incluindo a Prefeitura do Rio de Janeiro.

 

Os cidadãos em todo o mundo estão, cada vez mais, exigindo serviços públicos melhores. Mas, especialmente no Brasil, a crise econômica e os déficits fiscais têm desafiado os governos a encontrarem soluções mais eficientes para prestarem serviços efetivos. Por isto, é ainda mais urgente adotar inovações que tragam resultados comprovados, como a ciência comportamental aplicada, sendo o Nudge uma das suas principais aplicações. Em 2014, Tim Harford do Financial Times escreveu: “A economia comportamental é uma das ideias mais quentes da política pública. O Behavioural Insights Team (BIT) do governo britânico, usa a disciplina para desenhar políticas públicas. A Casa Branca anunciou seu próprio grupo de insights comportamentais”. De fato, era o começo de um movimento global. Hoje, vários países e cidades criaram ou estão criando suas próprias unidades de ciência comportamental aplicada, também chamadas de Unidades de Nudge.

Mas o que é Nudge? A ciência comportamental comprova que a grande maioria das decisões que tomamos no dia-a-dia são automáticas: não paramos para pensar. Usamos atalhos mentais/heurísticas (regrinhas, vieses) desenvolvidos ao longo da vida. Estes atalhos mentais são muitas vezes compartilhados entre pessoas da mesma cultura, ou do mesmo estrato. Assim, Nudge é um “empurrãozinho” que leva pessoas a mudarem, previsivelmente, seus hábitos ou comportamentos beneficiando a si e à sociedade como um todo. Nesse sentido, usando os atalhos mentais/heurísticas, desenham-se contextos que motivem uma mudança de hábitos ou comportamentos. Isso sem restringir nenhuma das opções nem mudar significativamente os incentivos econômicos.


O grande desafio, nesses casos, é como descobrir o contexto mais efetivo para os diferentes estratos de pessoas que serão impactadas. Para isso, sempre que possível, conduzem-se testes controlados e randomizados (RCTs), isto é, inclui-se um grupo de controle e diversos grupos de tratamento, um para cada contexto desenhado. E com base em resultados empíricos, a lógica do Nudge identifica o desenho mais efetivo de uma iniciativa ou política pública, antes de sua implantação em larga escala. Alguns exemplos podem ilustrar o que estamos colocando aqui: em Amsterdam, pintaram uma mosca no fundo do mictório. Os homens tentam acertar a mosca e assim reduziu-se o respingo de urina no banheiro em 80%. Na Inglaterra, mensagens motivacionais semanais para os alunos reduziram em 7% o absenteísmo e em 33% o abandono escolar.

No Brasil, nos últimos dois anos, em parceria com diferentes organizações internacionais, a Prefeitura do Rio de Janeiro tem estruturado e realizado diferentes projetos de Nudge: Redução do índice de desistência no tratamento de tuberculose, em parceria com o Banco Mundial; aumento do envolvimento dos pais na educação dos filhos e antecipação de matrícula; maior atividade física entre idosos; menor fechamento de cruzamentos; maior adesão ao portal da Prefeitura etc. Mas, a maioria das ações tem se concentrado em recuperação de impostos. Exemplos: a) Uma carta ao fim do ano com dada mensagem conseguiu arrecadar 200% a mais de IPTU em atraso que a carta padrão; b) as cartas utilizaram diferentes heurísticas e foi 60% mais efetiva que a carta padrão em evitar que o cidadão entrasse na dívida ativa do município. Percebe? Por meio de estímulos planejados, conseguimos transformar nossa realidade.