Nós temos um plano? Sim, nós temos

Humberto Dantas

28 Setembro 2017 | 13h44

Texto de autoria de: Laura Angélica Moreira Silva, Cientista Social, Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro, Doutoranda em Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio Vargas e líder MLG. Atuou na Secretaria de Planejamento e Gestão do Estado de Minas Gerais e atualmente apoia municípios com foco em gestão e territorialização de ações.

 

No último texto escrito para esta coluna tentei apresentar, utilizando a metáfora de Odorico Paraguaçu, “nosso prefeito” de Sucupira, um dos dilemas da gestão pública: a presença de “gestores”, “consultores”, “especialistas”, “burocratas” dentre outras nomenclaturas, que tentam qualificar e quantificar suas ações dentro da administração pública sem necessariamente se ajustar a contextos.

A problematização que apresento hoje é, em si, uma boa intenção e algo que deveria ser inerente aos profissionais do campo, mas também pode ser analisada sob a perspectiva do dilema: pensar uma política pública. Quais seriam os problemas ou dilemas nisso? Na tentativa de trazer ao leitor mais questionamentos do que respostas apresento um conjunto de “boas intenções” que podem acarretar na dificuldade de pensarmos na política pública de forma ótima e acabarmos indo em direção a uma solução sub-ótima de política pública sem pensarmos muito a respeito.

O corpo burocrático busca através do planejamento, construir e desenvolver políticas públicas. Planejadores têm a boa intenção de unir atores, com conhecimentos diversos, para desenhar ou rever uma política pública. O problema aqui é que, em alguns casos, encontramos equipes multidisciplinares em detrimento da busca por uma equipe interdisciplinar, que seria o ideal para o desenho ótimo de determinada política. Por maiores que sejam as boas intenções, na maioria das vezes unem-se cérebros com conhecimentos distintos sem se exigir destes mesmos cérebros uma ação conjunta (ou em rede) que somadas podem aperfeiçoar o resultado esperado.

Quando permanecemos dentro da proposta multidisciplinar sem alcançarmos ações interdisciplinares mantemos a política pública restrita a departamentos, e aqui reside nossa problematização: frente a um problema complexo, quando tentamos resolvê-lo através da união de conhecimentos específicos que na prática não se unem, estamos de fato pensando políticas públicas? Ou estamos constantemente desenhando planos com um viés de conhecimento específico? Não é segredo que em muitos casos a administração pública é reativa para posteriormente anunciar “O Plano”.

A consequência dessa união de ações em blocos, com ausência de ações em rede, é que, frente uma situação de crise, não há tempo para reforçar ações já previstas em uma política pública, e sim, de apenas (re)criar Planos de Contingência, Planos Estratégicos, Planos de Desenvolvimento, Planos de Segurança, dentre muitos outros. Se o contexto da administração pública é árido e multifacetado, a busca pelo “plano infalível” nos leva a refletir sobre o quão esvaziado de significado está a expressão ‘política pública’ e o quão somos levados pelas variáveis do campo que em muitos casos são catalisadoras para a não perenidade das políticas.

Na qualidade de gestor público: como você conduziu a política pública ontem? Resta-nos prestar muita atenção nas linguagens da ação pública para evitarmos o uso constante das mesmas ferramentas, esquecendo de avançar para a ação em si, dada a constante busca pelo mesmo e/ou pelo óbvio com outras palavras e outras roupagens.