Educação inclusiva não é difícil somente para aqueles que fizeram a redação do ENEM

Humberto Dantas

16 Novembro 2017 | 19h09

Autoria: Laura Angélica Moreira Silva, Cientista Social, Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro, Doutoranda em Administração Pública e Governo pela Fundação Getúlio Vargas e Líder MLG. Atuou na Secretaria de Planejamento do Estado de Minas Gerais e atualmente apoia municípios com foco em gestão e territorialização de ações.

Diogo Sie Carreiro Lima é administrador público formado pela Fundação João Pinheiro, especialista em políticas públicas e gestão governamental ligado ao Governo de Minas Gerais e Líder MLG. Atualmente atua na Secretaria de Planejamento da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte com foco na gestão de projetos estratégicos e na coordenação de contratos de gestão.

 

No domingo dia 05 de novembro, primeiro dia de prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), a escolha do tema da redação gerou questionamentos entre alunos e aqueles que atuam na área da educação. O exame contemplou as provas de linguagens, ciências humanas e a redação, que tratou dos Desafios para Formação Educacional de Surdos no Brasil. O tema deste ano seguiu a tendência das últimas edições do Exame, que costuma abordar temas sociais. Das últimas 19 edições, 11 tratavam de algum assunto relacionado a direitos humanos. Em 2016, o tema foi Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil. Violência contra a mulher, publicidade infantil, Lei Seca e Movimento Imigratório também foram temas abordados nos últimos anos.

 

O desafio para escrever uma redação sobre a formação educacional de surdos no Brasil é uma realidade para os implementadores de políticas com foco na inclusão de determinado público-alvo. De forma genérica, até o início do século 21, o sistema educacional brasileiro abrigava dois tipos de serviços: a escola regular e a escola especial. Isso significa que, ou o aluno frequentava uma modalidade de serviço escolar, ou a outra. Na última década, entretanto, iniciou-se no nosso sistema escolar a transformação rumo a uma proposta inclusiva em que um único tipo de escola é adotado: a regular, que deve, em teoria, acolher todos os alunos, apresentar meios e recursos adequados e oferecer apoio àqueles que encontram barreiras para a aprendizagem.

 

Compreendendo a escola como um espaço único, a educação inclusiva abarca a educação especial dentro da escola regular e transforma a escola em um espaço para todos, favorecendo a diversidade na medida em que considera que todos os alunos podem ter necessidades especiais em algum momento de sua vida escolar. A opção por este tipo de educação, entretanto, não significa negar as dificuldades dos estudantes. Pelo contrário. Com a inclusão, tem-se por objetivo expor aos estudantes que as diferenças não são vistas como problema, mas como diversidade. É neste contexto de variedade, a partir da realidade social, que pretende-se ampliar a visão de mundo e desenvolver oportunidades de convivência a todas as crianças.

 

Entretanto, é de conhecimento que há um desafio para gestores, professores e educadores sobre como recepcionar adequadamente estudantes surdos, afinal historicamente vivemos em um país que desenha políticas públicas desconsiderando nichos minoritários. Temos ciência que o debate e a abrangência da educação inclusiva na agenda são importantes, contudo, a prática dentro da escola e a forma como a comunidade escolar recebe um aluno surdo em suas dependências ainda está distante daquilo que se pode chamar de formação educacional. A realidade é triste, mas é comum encontrarmos estórias de alunos surdos segregados dentro de um ambiente escolar que deveria incluí-los.

 

A escolha do tema do ensino de surdos coincide com a disponibilização, pela primeira vez  no Enem, de videoprova com tradução em Libras para candidatos com deficiência auditiva. Cerca de 1,3 mil surdos e 3,4 mil pessoas com deficiência auditiva se inscreveram e, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), mais de 1,6 mil candidatos escolheram usar o novo recurso. Outras opções disponíveis são a leitura labial e o tradutor intérprete de Libras. O instituto intensificou, também neste ano, as orientações para as provas direcionadas a surdos. Foi disponibilizado no canal do Youtube do Inep, uma série com mais de 30 vídeos em Libras explicando detalhes do exame.