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Política » A anedota do burocrata e seu cemitério

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Humberto Dantas

20 Abril 2017 | 13h03

Autoria: Laura Angélia Moreira da Silva, cientista social, mestre em administração pública pela Fundação João Pinheiro e doutoranda da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Líder MLG com experiência nas áreas de gestão, planejamento e segurança pública.

 

 

Odorico Paraguaçu, candidato a Prefeito da cidade de Sucupira, fez uma promessa de campanha: construir um cemitério. Com esse discurso, o mesmo foi eleito, contudo, um problema importunava a gestão de Odorico Paraguaçu: após a inauguração do cemitério, ninguém veio a óbito. Sabendo que uma boa gestão é composta por um discurso vinculado a resultados, Odorico passou a escolher meios aqui categorizados como “ilegais” que justificassem seu fim: inaugurar uma sepultura em Sucupira. Revisitar a literatura brasileira e, através da simbologia de Odorico Paraguaçu, descrita na obra “O Bem-Amado”, traça-se um paralelo com a gestão pública contemporânea, sendo essa construída e gerida por pessoas que possuem, digamos, seus delírios burocráticos, na tentativa de qualificar e quantificar suas ações dentro da rede burocrática sem necessariamente se ajustar a contextos.

Considerando somente a descrição inicial da personagem (não pretendo exaurir suas qualidades, ficando aqui somente com a alegoria que colabora com a reflexão) e a sua sede em “cortar a faixa” e “tirar a fotografia” inaugural do cemitério, de preferência com uma cova “cheia” e todas as suas tentativas para tal, Odorico Paraguaçu não nos parece, em um primeiro momento, um servidor público brasileiro como é comum de se descrever: um indivíduo acomodado e procrastinador, uma pessoa sem a proatividade e senso de urgência preconizados pelo mercado. Muito antes o contrário, a personagem precisa gerar resultados, independente das ferramentas para conquistá-lo.

Se a capacidade de uma administração pública pode ser medida por meio da atuação do seu corpo político e de sua burocracia, questiona-se aqui até que ponto a manutenção de “Odoricos Paraguaçus” à frente das políticas públicas gera alta probabilidade de se conquistar um resultado esperado. Neste ponto, atrevo-me a dizer que, frente a fluidez dos usos dos mecanismos de gestão, como se as ferramentas gerassem resultados em si mesmas, o burocrata tende a criar e posteriormente conviver diariamente com o seu delírio burocrático, termo esse que utilizo para caracterizar aqueles burocratas que já se esqueceram dos reais motivos que os levaram a escolher determinada política pública, esqueceram as razões que os levaram a contratualizar determinados resultados, que não se preocupam com o significado da meta e sim com o seu cumprimento, puro e simples, como se os números sozinhos refletissem a efetividade. O único ponto importante para esses gestores é o fato da política pública, da promessa, do resultado fim ser positivo para si mesmos, não importando mais para quem, ou para o quê. Esse efeito perverso é visto em determinadas administrações públicas quando os ritos de resultado são mais importantes do que os esforços em si; os modelos de governança são replicados sem que se observe a qualidade dos mesmos; quando não se observa se de fato as pessoas certas estão se envolvendo na tomada de decisão e se estamos conduzindo a política pública para o efetivo atendimento da demanda.

É importante refletir se nós, servidores públicos, de fato estamos optando por ações públicas que não estão esvaziadas, afinal obter informação per si não significa a manutenção de uma política e nem seu resultado, bem como os instrumentos legais somados aos discursos são capazes de gerar “um cadáver que inaugurará cemitérios”.  É necessário revisitarmos nossas condutas sempre, evitando que essas se tornem um conjunto de boas intenções ou de cordialidades que não reflitam situações inesperadas e externalidades negativas, afinal contingências podem ocorrer, e mais do que isso: que não reflitam o cuidado com a coisa pública que todo servidor público deve ter.

Por fim cabe frisar que o cemitério em Sucupira foi inaugurado. Pelo próprio Odorico Paraguaçu.

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