Ilan Goldfajn, o homem que ‘quebrou a espinha’ da inflação
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Ilan Goldfajn, o homem que ‘quebrou a espinha’ da inflação

Considerado “conservador” por alguns analistas, ele conseguiu recuperar a confiança dos investidores e a credibilidade do Banco Central

José Fucs

04 Fevereiro 2018 | 05h00

O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, na sede regional do Banco Central em São Paulo (Foto: Gabriela Bilo/Estadão)

Ao assumir a presidência do Banco Central, em junho de 2016, o economista Ilan Goldfajn encontrou um quadro sombrio. O País vivia a mais profunda recessão de todos os tempos, com desemprego recorde, e enfrentava uma crise política e moral que ameaçava paralisar a República. A inflação, de 8,9% ao ano, estava bem acima do teto da meta, de 6,5%. A taxa básica de juro, a Selic, usada como referência pelo mercado financeiro, alcançava 14,25% ao ano, a maior desde 2006, e o dólar comercial roçava R$ 3,7, refletindo as incertezas dos investidores. Em meio às adversidades, o nível de confiança de empresários e consumidores despencou, atingindo o mínimo histórico.

Hoje, vinte meses depois, a crise política e moral persiste, mas na economia, supreendentemente, as nuvens começaram a se dissipar e os primeiros raios de sol surgiram no horizonte. A recessão ficou para trás, o desemprego recuou e o crescimento deverá alcançar entre 2,5% e 3% neste ano, segundo as projeções dos analistas. A inflação perdeu força e fechou o ano passado em 2,95%, abaixo do piso da meta, fixado em 3%, pela primeira vez desde que o sistema de metas foi adotado pelo País, há quase 20 anos. Os juros caíram ao menor patamar da história, para 7% ao ano, e poderão cair ainda mais, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para terça e quarta-feira desta semana, se as previsões de mercado se confirmarem. O dólar baixou para R$ 3,2, uma queda de quase 15% desde meados de 2016, e a Bolsa de Valores, que antes parecia não encontrar o fundo do poço, agora bate seguidos recordes de alta, expressando a melhora das expectativas com o desempenho das empresas.

Trata-se de um resultado que nem os analistas mais otimistas previam que fosse possível alcançar em tão pouco tempo. Como diz o economista Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio da Mauá Capital, uma empresa de gestão de recursos, “se alguém do mercado dissesse que isso iria acontecer seria chamado de louco”.


O mérito pela melhora da economia deve ser atribuído a toda a equipe econômica, comandada pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles. Mas Goldfajn, com o apoio de seus colegas de diretoria do BC, tem boa parte da responsabilidade pelos resultados obtidos pelo governo. “O Banco Central tinha perdido completamente a credibilidade na administração anterior, submetido aos desígnios da então presidenta”, afirma o economista e escritor Edmar Bacha, um dos “pais” do Plano Real e diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças, onde trabalhou com Goldfajn. “O Ilan conseguiu colocar a casa em ordem, num período muito curto e num cenário político complicadíssimo.”

 Pelos resultados que alcançou num ambiente hostil, Goldfajn foi eleito pela revista The Banker, ligada ao jornal britânico Financial Times, como “banqueiro central do ano” de 2018. Ganhou o título global, obtido pela primeira vez por um brasileiro, e o regional, na América Latina. O prêmio, anunciado no início de janeiro, é concedido aos dirigentes de bancos centrais que se destacaram ao estabilizar suas economias e estimular o crescimento econômico. “É bom que o Brasil seja reconhecido lá fora não só no surf e no futebol, mas também numa área técnica como a do Banco Central”, diz o cientista político Fernando Schüler, do Insper, escola de negócios, direito e engenharia de São Paulo.

 Reservado, como convém ao cargo que ocupa, com a fala mansa e uma preocupação visível em não ferir suscetibilidades no governo, onde o sucesso alheio costuma despertar sentimentos inconfessáveis, Goldfajn, de 52 anos, trata as premiações com sobriedade. Até porque ele sabe que, com qualquer chacoalhada nos mercados aqui ou lá fora, o jogo pode virar de repente. “É uma grande honra”, afirma. “Já tinha recebido dois prêmios no final do ano passado (o de melhor presidente de Banco Central na América Latina, concedido pela revista Global Markets, e a nota “A”, conferida pela revista Global Finance, que avalia o desempenho de 83 presidentes de bancos centrais no mundo), mas dessa vez foi algo maior.”

Alguns analistas dizem que Goldajn teve sorte e foi beneficiado pela redução dos preços dos alimentos em 2017, que deu uma grande contribuição para o combate à inflação. Falam, também, que, com a recessão, o desemprego e a queda do consumo, o mergulho da inflação era uma questão de tempo. “Essa queda da inflação não foi um acaso. Já havia vários elementos contratados para ela ocorrer antes da entrada dele no Banco Central”, diz Tony Volpon, economista-chefe do banco suíço UBS, no Brasil, e ex-diretor da área internacional do BC na gestão Dilma, que trabalhou com Goldfajn durante cerca de um mês na transição de governo.

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O caminho para recuperar a credibilidade do Banco Central e derrubar a inflação, porém, não foi tão suave. Logo que assumiu a presidência do BC, Goldfajn enfrentou questionamentos sobre a conveniência de aumentar as metas de inflação, diante do que parecia ser uma missão quase impossível: fechar o ano de 2016 com o indicador abaixo do teto da meta, então de 6,5%. De acordo com os defensores da proposta, que incluíam nomes respeitados do mercado, era uma alternativa adequada para evitar a repetição do desgaste político enfrentado por Dilma, caso a meta fosse descumprida. Mesmo assim, ele decidiu correr o risco, acreditando que era possível chegar lá – e deu certo. A inflação de 2016 ficou em 6,29% e Goldfajn venceu sua primeira grande batalha no cargo.

Além de manter a inflação dentro da meta em 2016, Goldfajn ainda conseguiu aprovar no Conselho Monetário Nacional (CMN), em meados do ano passado, a redução do centro da meta de 4,5% para 4,25% em 2019 e para 4% em 2020, com tolerância de até 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Agora, uma nova redução é esperada na próxima reunião do CMN, em junho, quando o órgão deverá anunciar as metas de inflação para 2021.

No início de sua gestão, executivos do mercado também chamaram Goldfajn de “conservador” e criticaram a demora do Banco Central em cortar os juros, diante do cenário recessivo e da fraca demanda existente na época. Ele acreditava que era melhor “ancorar” as expectativas antes de começar a reduzir os juros. De novo, manteve a sua posição e mais uma vez se deu bem. A inflação teve uma forte queda e o BC pôde, então, realizar uma política gradual de corte das taxas, cujos efeitos positivos se revelam agora em toda a sua extensão.

A gente foi cauteloso e preferiu ancorar as expectativas antes de começar a flexibilizar os juros

“Em política econômica, o ingrediente de confiança é fundamental. É importante passar para o mercado que você não vai fazer loucura, que tem uma visão de longo prazo”, afirma Goldfajn. “O nível de atividade estava fraco, mas a gente foi cauteloso e preferiu ancorar as expectativas antes de começar a flexibilizar os juros. No final, isso ajudou a quebrar a espinha da inflação e fechamos 2017 com um crescimento de cerca de 1%, quando se achava que seria de 0,5%.”

Segundo quem conviveu com ele ao longo de sua carreira, Goldfajn se coloca com frequência como uma espécie de “antagonista” das visões predominantes entre os analistas. De certa forma, dizem, faz parte de sua personalidade colocá-las em xeque.“O Ilan questiona muito os legados, o ‘inconsciente coletivo’ do mercado”, afirma o economista Daniel Gleizer, diretor de investimentos da BW, a empresa responsável pela gestão de recursos da família Moreira Salles, e ex-colega de Goldfajn no Itaú, na diretoria do BC e no Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington (EUA), no final dos anos 1990.

“Ele é uma pessoa de fino trato, bem humorada, de energia muito positiva, mas de convicções firmes e bem estruturadas”, diz o economista Armínio Fraga, ex-presidente do BC e sócio da Gávea Investimentos, uma empresa de gestões de recursos e participações. Fraga chegou a dividir um apartamento com Goldfajn em Brasília, quando ele participou de sua equipe no BC, no final do governo Fernando Henrique, e o teve como sócio na Gávea, depois que ele deixou a instituição, já no governo Lula. “Ele é calmo, tranquilo, e consegue analisar a situação em momentos de alta tensão, que algo é essencial para posição que ocupa hoje.”

O Ilan reage às críticas com serenidade, sem perder a ternura

Com uma formação sólida e uma carreira eclética, com passagens pela academia, pela iniciativa privada, pelo governo e por instituições multilaterais como o FMI, Goldfajn também é conhecido por sua capacidade de ouvir seus interlocutores e aceitar as críticas. “O Ilan reage às críticas com serenidade, sem perder a ternura”, afirma Gleizer. “Ele tem a vantagem de ser muito seguro, o que lhe permite ter a cabeça aberta, que é uma qualidade pouco comum”, diz Luiz Fernando Figueiredo, que também trabalhou com Goldfajn no Banco Central, na gestão de Armínio Fraga, e depois na Gávea Investimentos, da qual também foi sócio.

De acordo com Goldfajn, o mais difícil até agora não foi administrar as críticas, mas enfrentar as turbulências do mercado em três momentos distintos: após a eleição do presidente americano Donald Trump, no final de 2016, após a aprovação do Brexit pela Grã Bretanha, que definiu sua saída da União Europeia, em março de 2017, e após as denúncias do empresário Joesley Batista, do grupo JBS, contra o presidente Michel Temer, em maio do ano passado. “Tivemos de intervir no mercado para manter a normalidade”, afirma.

Embora a face mais visível de seu trabalho seja a política monetária, ele teve papel decisivo também em ações essenciais para o aperfeiçoamento institucional do sistema financeiro. Foi um dos grandes responsáveis pela introdução da nova Taxa de Longo Prazo (TLP), que passou a indexar os financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) desde o início do ano e deverá aproximar gradualmente os juros cobrados pela instituição dos juros de mercado. Sua atuação ainda foi decisiva para a celebração dos acordos de leniência com os bancos envolvidos em casos de corrupção e para aprovação do novo marco punitivo pelo Congresso, que inclui os valores das multas e as normas para celebração dos chamados “termos de compromisso”, realizados no âmbito administrativo com as instituições financeiras investigadas por desvios de conduta. Além disso, Goldfajn agiu com firmeza no caso do afastamento dos ex-vice-presidentes da Caixa suspeitos de corrupção e para cobrar maior rigor do banco na concessão de novos empréstimos aos Estados e municípios, realizados com garantias proibidas pela legislação.

Vamos tentar trabalhar independentemente de onde a política vai nos levar

Goldfajn está implementando uma complexa agenda de mudanças no setor bancário, batizada de BC+.  A agenda inclui uma cruzada para reduzir os spreads bancários, o aperfeiçoamento do cadastro positivo, o aumento da competitividade entre as instituições financeiras e a introdução da educação financeira no ensino básico. “Essa agenda envolve projetos que podem parecer menores, mas é algo de grande importância, com forte viés social e educacional”, diz Fraga. “É muito fácil ir para Banco Central e se deixar absorver pelo lado macro, que ganha muito espaço na discussão pública, mas não ter tanto interesse por esse dia a dia do cidadão.”

Com a proximidade das eleições, que deverão aumentar as incertezas dos investidores e poderão afetar a aprovação das reformas estruturais pelo Congresso, em especial a da Previdência, Goldfajn não deverá ter vida fácil em 2018. A eventual alta dos juros americanos poderá contribuir para agravar a situação. “O Banco Central é um órgão técnico, com autonomia ‘de facto’, e vamos tentar trabalhar independentemente de onde a política vai nos levar. O importante é a gente ter clareza de que deve manter a direção que nos levou a sair da recessão e à queda da inflação e dos juros”, afirma. “Esse cenário benigno no mundo não vai continuar para sempre. A gente não sabe quando, mas em algum momento o juro vai subir lá fora, favorecendo o dólar e a volta de capitais para os Estados Unidos. Temos de estar preparados para enfrentar a mudança quando ela acontecer.”

Com o esperado reaquecimento da economia do País, Goldfajn, terá ainda pela frente o desafio de identificar a hora de encerrar o atual ciclo de queda dos juros e voltar a subir as taxas. “Em algum momento, o Banco Central terá de aumentar os juros. Talvez, ele deixe passar o momento eleitoral para que isso ocorra, mas não deverá passar muito disso”, diz Tony Volpon. “Para mim, nenhum banqueiro central consegue firmar sua reputação até passar pelos dois ciclos, de corte e de alta das taxas.” Desde já, porém, pelos resultados que alcançou até agora, Goldfajn demonstrou que reúne as credenciais necessárias para acertar mais uma vez a calibragem da política monetária.

Longe da economia, a paixão pelo futebol e pelo Flamengo

O presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, deixou uma carreira de sucesso no setor privado e teve de vender suas ações do Itaú Unibanco, do qual era economista-chefe, para assumir o cargo, em junho de 2016. Abriu mão dos ganhos polpudos que recebia no banco em troca de um salário bruto mensal de R$ 30.940,70. Como mora com a família em São Paulo, onde se fixou há cerca de nove anos, quando começou a trabalhar no grupo Itaú, recebe também um auxílio-moradia de R$ 5.995,06, que usa para custear um apart-hotel, localizado na Asa Norte, região nobre de Brasília. Em geral, fica na cidade de terça a quinta-feira e na segunda e na sexta-feira costuma despachar na sede regional do Banco Central em São Paulo, onde também passa os fins de semana com a mulher Denise, uma psicanalista com quem está casado há 27 anos, e os três filhos.

Nascido em Haifa, em Israel, Goldfajn é brasileiro, registrado na embaixada do Brasil em Tel Aviv.  Ele mudou com a família para o Rio de Janeiro, onde nasceu seu irmão mais novo, quando tinha 13 anos, no início do processo de redemocratização do País, no final dos anos 1970. Seus pais, ambos judeus de famílias de origem polonesa, viviam no Rio e emigraram para Israel, onde também nasceu sua irmã mais velha. Desde cedo, porém, Goldfajn falava o português em casa e não teve problema com a língua quando veio para o País. Ele não se considera religioso, mas diz que respeita as “tradições” judaicas.

No Rio, onde viveu a maior parte de sua vida, Goldfajn adquiriu a paixão pelo Flamengo e pelo futebol, que costumava praticar nos fins de semana até sofrer uma crise ciática, em abril do ano passado, devido a uma hérnia de disco, tratada com uma série de sessões de fisioterapia. Tanto em sua casa em São Paulo como, no apart-hotel que aluga em Brasília e no apartamento que mantém no Rio, assina o pay-per-view para não perder os jogos do Flamengo. Ainda hoje, sempre que pode, vai com o filho caçula, hoje com 15 anos, aos jogos do clube no Rio.

Ele estudou no Liessin, um dos colégios mais tradicionais da comunidade judaica carioca, e fez o curso de economia, na UFRJ, e o mestrado na PUC-RJ, onde teve como mestre o economista Dionísio Dias Carneiro (1945-2010), que diz ter marcado sua atuação acadêmica e profissional, “não tanto pelo aspecto técnico, mas pelo amor que tinha pelo conhecimento, pelo prazer do debate”.

Entre 1991 e 1999, morou nos Estados Unidos, onde fez o dourado no prestigiado Massachusetts Institute of Technology (MIT). Teve como orientadores os economistas Rudiger Dornbusch (1942-2002), que produziu vários trabalhos sobre a economia brasileira, e Stanley Fischer, ex-vice-presidente do Fed, o banco central americano, e ex-presidente do Banco Central de Israel, dois nomes que marcaram fortemente a sua formação

Nos EUA, Goldfajn ainda trabalhou como professor na Brandeis University, na região de Boston, e como economista do Departamento da Ásia do Fundo Monetário Internacional (FMI), em Washington. Ele prefere não revelar, porém, com qual escola do pensamento econômico se identifica mais. “Faço um esforço enorme para tentar não me enquadrar, para poder conversar com todo mundo”, diz.

No começo de 2000, ao voltar ao Brasil, assumiu a diretoria de Política Econômica do Banco Central a convite do então presidente da instituição, Armínio Fraga, que ele afirma ter tido também grande influência em sua vida profissional, e voltou a morar no Rio. Exerceu diversas atividades no mercado financeiro e na academia no Rio, até ser contratado pelo Itaú, em 2009, e se mudar para São Paulo, onde fica a sede do banco e onde vive até hoje. Como seus pais resolveram voltar a Israel há alguns anos, depois de se aposentar, Goldfajn costuma viajar ao país anualmente, para visitá-los. Vai também pelo menos uma vez por mês com a mulher ao Rio, para visitar os sogros, que moram na cidade. (JF)