‘A briga de egos prejudica a direita’
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‘A briga de egos prejudica a direita’

Autor do “Guia Bibliográfico da Nova Direita” e responsável pelo blog “Sentinela Lacerdista”, o jornalista Lucas Berlanza diz que a atual fragmentação política de liberais, conservadores e libertários no País dificulta a chegada ao poder

José Fucs

10 Novembro 2017 | 19h11

O jornalista carioca Lucas Berlanza tem 25 anos e terminou há pouco tempo a faculdade.  Na linguagem das redações, seria considerado um “foca”. Mas, desde já, demonstra uma desenvoltura geralmente observada nos jornalistas mais tarimbados. Responsável pelo blog Sentinela Lacerdista, de viés liberal-conservador, colaborador do site do Instituto Liberal, uma tradicional trincheira do liberalismo no País, e autor do livro Guia Bibliográfico da Nova Direita (Ed. Resistência Cultural, 256 pág., R$ 49), lançado recentemente na praça, Berlanza se distingue da maior parte de seus colegas de profissão, dos mais jovens aos mais velhos, que rezam pela cartilha da esquerda. Nesta entrevista ao blog, Berlanza conta como enfrentou as patrulhas ideológicas no colégio e na faculdade, fala sobre seu livro e analisa o renascimento da direita no País e os sectarismos que dificultam a transformação dessa força política em alternativa viável de governo.  “Ainda falta um projeto de poder à direita no Brasil”, afirma. “As brigas de ego acabam comprometendo o propósito maior.”

Você tem 25 anos, ainda é relativamente jovem. Como começou a se interessar por essas coisas, pelo liberalismo e pela chamada “nova direita” que surgiu no Brasil nos últimos anos?
Isso começou ainda nos tempos do colégio. Eu não tenho uma formação religiosa tradicional, católica ou protestante. Sou espírita. Então, de alguma forma, a minha leitura, relacionada à minha crença, já me fazia um pouco reticente em relação às teses que ouvia no colégio. A gente ouvia falar muito de marxismo, socialismo, revolução, ditadura do proletariado, mas não se falava nas teses liberais. No máximo, havia uma ou outra menção a Adam Smith. Não se falava nem de outros pensadores de esquerda. Era Marx, Marx, Marx o tempo todo, e aquela doutrina de base materialista e violenta já me incomodava, já criava em mim uma resistência natural. Com o tempo, isso foi se sofisticando e comecei a procurar leituras que mostrassem o outro lado das coisas, que não era oferecido na escola.  Acabei encontrando, e isso foi desembocar na minha visão atual.

Você fez a faculdade de Jornalismo. Na faculdade, as coisas não eram diferentes?
Na escola de comunicação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) não existe direita. Tentei inscrever um artigo num congresso de história da imprensa em 2014, no ano de centenário de Carlos Lacerda, que se daria nas dependências da universidade. Mas, por incrível que pareça, o artigo não foi aceito pelos organizadores do evento. Até tentei pesquisar para saber se havia alguma impropriedade acadêmica no texto, mas ninguém encontrou nada. Então, me pareceu que foi realmente uma rejeição ideológica, tanto que depois eu vi que foram aceitos artigos acadêmicos no congresso sobre revistas em quadrinhos americanas, coisas de todos os tipos, mas no ano do centenário do Lacerda não tinha nada sobre ele. Bem ou mal, gostem dele ou não, o Carlos Lacerda foi um jornalista que desempenhou um papel importante na história do Brasil. Portanto, no ano de seu centenário, foi um absurdo que o congresso não tenha aceitado um trabalho que fazia menção a ele. Aí, eu acabei procurando outro lugar para publicar esse texto e o Instituto Liberal me abriu as portas.


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De onde veio esse seu interesse pelo Carlos Lacerda, para criar um blog chamado “Sentinela Lacerdista”?
Também começou no colégio, onde ele era ‘vilanizado’. Todo o material didático colocava o Lacerda sempre na posição de antagonista ou então de um personagem irrelevante, cujo único destaque teria sido o atentado da Rua Toneleros ou a sua participação na intervenção militar de 1964. Vendo que ele era um personagem ‘vilanizado’, que enfrentava todo mundo, meu interesse por ele aumentou. Naturalmente, li vários livros sobre ele, mas, para mim, a melhor biografia do Lacerda ainda é Vida de Lutador. É um livro enorme, são dois volumes, escrito por um autor americano, o John Foster Dulles. Ele não participa de maneira opinativa do conteúdo. Expõe, a partir de fontes primárias, o que aconteceu com o Lacerda, o que ele dizia e fazia.

Depois de publicar esse texto sobre o Lacerda, você continuou a trabalhar para o Instituto Liberal?
Depois disso, eu pensei: vou continuar a escrever para lá, se eles aceitarem.  Comecei, então, a mandar alguns artigos para eles e seguimos até hoje nessa relação. Em 2015, eu me tornei assessor de imprensa do Instituto Liberal. Recentemente, voltei a ter um vínculo com eles. Estava publicando textos no meu blog, o Sentinela Lacerdista, que eles replicavam no site do IL. Então, eles voltaram a me contratar para escrever dois textos por semana.

“ Costumo dizer que a Dilma foi a grande professora de liberalismo que o Brasil teve. Ensinou tudo o que não se deve fazer em economia”

Agora, vamos falar um pouco sobre o seu livro. Logo no título, você usou o termo “nova direita”. Por que “nova direita”? Em que ela é diferente da velha direita?
Isso até gerou certa discussão. Eu já sabia que isso ia acontecer, porque é uma expressão polêmica, que eu incorporei, a partir do uso recorrente que as pessoas envolvidas no processo faziam dela. É uma expressão usada como uma  identidade por um grande número de pessoas com quem tive contato desde que entrei nesse meio e conheci esse pessoal. A acepção que ela tem no livro é meramente temporal e não no sentido de representar uma ruptura com as ideias que existiam antes, como se houvesse surgido uma nova escola de pensamento que tivesse reinventado a roda. É apenas um marco temporal de que essas ideias liberais e conservadoras, que andaram durante muito tempo no ostracismo no Brasil, voltaram a ganhar relevância, seja nas redes sociais, que se tornaram um importante fator para alavancá-las, seja por meio de formadores de opinião, colunistas de jornais e editoras que estão publicando livros com uma visão liberal e conservadora. Algumas dessas ideias são novas. Outras estão sendo simplesmente revalorizadas, com uma nova conformação, uma nova densidade social, a partir da queda e do esgotamento do regime do PT, do regime lulopetista. Eu costumo dizer que a Dilma foi a grande professora de liberalismo que o Brasil teve. Ensinou tudo o que não se deve fazer em economia.

A que você atribui o fato de a direita ter ficado tanto tempo no armário no Brasil?
É uma longa história. O grande fator foi a política tecnocrata e fisiológica praticada no regime militar, que afastou as lideranças civis da direita e cassou o próprio Carlos Lacerda, da UDN. Após o seu colapso, os militares entregaram o País a uma elite política que ficou dividida entre lideranças fisiológicas, muitas delas presentes no PMDB, que tinha um grande caldo nacional-desenvolvimentista, os social-democratas do PSDB e os socialistas e radicais abrigados originalmente no PT e depois nesses partidecos saídos do PT, como PSOL e companhia. Como o regime militar tinha um componente autoritário, que se expressava por meio da censura aos meios de comunicação, com censores dentro das redações, houve uma tendência natural a identificá-lo com o que se chamava, correta ou erroneamente, de direita. As pessoas passaram a ficar com vergonha, acabrunhadas, de se dizer de direita. Mas isso também aconteceu porque as forças políticas a que o regime militar se opunha acabaram voltando e se tornando hegemônicas em vários campos. Elas ocuparam as universidades, dominaram a produção cultural e a imprensa e passaram a pautar e a insuflar essa vergonha, aproveitando-se da abertura política.

“O grupo dos liberal-conservadores não costuma se envergonhar de ser chamado de direita”

Como você mostra no livro, a direita brasileira é formada por várias correntes: os liberais, os libertários, os conservadores, os nacional-desenvolvimentistas e estatistas, os autoritários, os fascistas. Mas, no livro, você se concentra muito no que chama de liberal-conservadores. Por quê?

Como digo na introdução, estou me referindo a um fenômeno muito específico, uma massa de pessoas que está lendo e se informando sobre fontes bibliográficas liberais e conservadoras. Para mim, parece que esse é o grupo que mais se baseia numa literatura sobre o tema. É o grupo que não costuma se envergonhar de ser chamado de direita. Os anarcocapitalistas não gostam. Eles não se consideram de direita. Os libertários também não. Além disso, não deixo de confessar na introdução que isso tem a ver também com uma identificação pessoal, porque é a linha à qual estou mais vinculado. O livro também é um testemunho pessoal.

Quais principais bandeiras dessa nova direita liberal-conservadora que você aborda no livro?
Naturalmente, a razoabilidade econômica, com base na responsabilidade fiscal, na retração do Estado e da máquina burocrática, a emancipação do indivíduo, a liberdade de mercado, a propriedade privada. Também se combate essa intoxicação ideológica no ambiente do ensino e da cultura no País.  Agora, isso só se fará com ocupação de espaços, a conquista de posições.

É difícil entender como muita gente desse grupo que se diz liberal-conservadora flerta com a candidatura do deputado Jair Bolsonaro, que é um nacional-desenvolvimentista tipo Geisel, e apoiou a candidatura da Marie Le Pen na França e de outros políticos de extrema direita pelo mundo afora, que não tinham nenhum vínculo com o liberalismo econômico.  Como você analisa isso?
A família Bolsonaro está tentando fazer um esforço de se aproximar dessas ideias liberais, tentando falar ao público liberal, essa chamada nova direita, mas alguns atavismos pessoais se sobrepõem a isso, como a ideia de o Bolsonaro ir para o PEN  (Partido Ecológico Nacional) e de trocar o nome do partido para Prona,  que era marcado pelo ultranacionalismo do Enéas, que não tinha nada de liberal-conservador. Felizmente, no final, ele voltou atrás e o nome do partido ficou sendo Patriotas, que é muito melhor. O Bolsonaro está tentando ter projeção nacional, mas mantém os atavismos e as ideias que tinha antes, quando começou sua carreira como pequeno líder sindical dos militares.

Muitos brasileiros que apoiavam a candidatura da Marie Le Pen na França e outros candidatos do gênero em outros países diziam que tinham essa posição, entre outras razões, porque eram contra o chamado “globalismo”.
Realmente, o pessoal elogiar a Le Pen não dá para entender não. A Marie Le Pen é filha de antissemitas, quase fascista. Acredito que há uma grande diferença entre encampar a tese contra o globalismo e apoiar qualquer candidato que no fundo defende mesmo acabar com a globalização.

É meio esquisito também ver alguém que se diz liberal apoiar o presidente americano Donald Trump. Apesar de defender o corte de impostos, o Trump pode ser considerado praticamente um nacional-desenvolvimentista, quase uma Dilma. Ele apoia o protecionismo e o nacionalismo econômico, que não são bandeiras tradicionalmente ligadas ao Partido Republicano. Como você analisa isso?
Há uma identificação muito grande desse grupo que se diz liberal-conservador no Brasil com o filósofo Olavo de Carvalho. Como ele já declarou voto no Bolsonaro e seu apoio incondicional ao Trump, que são duas figuras que não se colocam como liberais, no sentido clássico, fica um pouco confuso mesmo entender o que significa isso, por causa dessas coisas.

“As pessoas com uma diferença mínima de posição não aceitam conversar. Submetem tudo ao projeto partidário de um candidato, como se o outro fosse um inimigo.

Tradicionalmente, os movimentos de esquerda são supersectários. Um grupo se diz marxista-leninista, o outro, fabiano, o outro, maoísta, eurocomunista e por aí vai.  Agora, essa “nova direita” da qual você fala no livro – e isso é surpreendente para mim — muitas vezes é pior do que a esquerda nesse aspecto. Os diferentes grupos da direita se odeiam, ficam se pegando pela internet, não procuram construir uma plataforma comum. Em sua opinião, o que acontece?
São muitos egos. As pessoas com uma diferença mínima de posição não aceitam conversar. Submetem tudo ao projeto partidário de um candidato, como se o outro, por discordar, fosse um inimigo. Isso está acontecendo, infelizmente. Não vou generalizar, mas se você olhar o caso dos libertários, por exemplo, vai observar que qualquer um que defenda um pouco mais de Estado do que eles é considerado socialista.

Você já viu esquerdista discutindo a obra de Marx? O sujeito diz que, no versículo 3, da página 45, de “O capital” ou da “Ideologia Alemã”, o Marx não fala essa palavra, fala aquela. Acontece isso também com os freudianos. Com a direita, está acontecendo algo parecido, hoje, no Brasil. Há alguma possibilidade de as direitas, no plural mesmo, superarem as suas diferenças para que possam sair da “guerra das ideias” e chegar ao poder?
Está difícil. Isso, infelizmente, não existe ainda na direita no Brasil. Falta certo planejamento nessa direção, falta esse projeto de poder ao qual você fez referência. Não descobrimos essa receita e ficamos nos engalfinhando por brigas de ego e de vaidade que acabam comprometendo o propósito maior.  Muita gente permanece se fiando em projetos imediatos, querendo colocar fulano ou ciclano como presidente, sem embasá-lo nessa agenda. Preferimos afastar, nos desagregar. Isso é um problema, uma fragmentação que precisa ser corrigida. Não com a supressão das divergências, que nos fazem crescer, mas pacificando esse relacionamento com vista a um propósito maior, ao bem do País.

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