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Você tem vinte anos pra tirar a mão daí

Ana Paula Henkel

06 Dezembro 2017 | 20h56

Não deveria me incomodar com um prêmio que já foi dado a Adolf Hitler, Vladmir Putin, Aiatolá Khomeini, Barack Obama e duas vezes a Josef Stálin, mas a revista TIME este ano resolveu esbofetear todas as mulheres que, como eu, tiveram que enfrentar dificuldades incalculáveis na vida por não aceitarem assédio ou trocarem carícias por fama e fortuna.

Exageros à parte, quem recusa o teste do sofá paga um preço, quem aceita sobe mais rápido. Fato. Ser ético e profissional, ter valores e princípios morais dados pela família e não por novela ou blogueiro lacrador, honrar pai e mãe, optar pelo bom, verdadeiro e justo sem atalhos ou concessões degradantes, pode ser um “teto de vidro” profissional e pessoal para quem se dá ao respeito. Se não houver violência ou coerção, é opção. Acertado não é caro.

Não me refiro às mulheres selecionadas pela TIME, mas é preciso dizer que todos que cedem a assediadores voluntariamente para acelerar o sucesso e engordar a conta bancária não me representam. As apressadas também não fazem jus a milhões de mulheres que se matam de trabalhar todos os dias, que fazem dupla jornada, que precisam ser mães, companheiras, filhas, irmãs, amigas, funcionárias, chefes, e mesmo assim não vão para a cama com o inimigo.

Perdoem meu francês, mas como respeitar uma mulher que desce a roupa para subir mais rápido na vida e depois de conquistar todo dinheiro e sucesso vem posar de porta-voz contra o assédio e a violência sexual? Quantas mulheres tão ou mais talentosas e aptas abriram mão de estar no topo para manter a própria dignidade? Quantas de nós tiveram vidas de entrega, sacrifício e puro altruísmo, que transformaram o mundo num lugar melhor sem lucrar nada com isso? Façam-me o favor!


Por mais que me esforce, nunca chegarei aos pés do heroísmo de Heley Batista, a professora que morreu há dois meses lutando contra um psicopata e com 90% do corpo queimado para salvar crianças que nem eram suas parentes, deixando seu bebê de um ano órfão. Onde estão as homenagens a seu exemplo e à sua memória? No dia que uma destas feministas de butique vier pedir minha piedade, mostrarei para ela a foto de Heley, esta sim a Mulher do Ano. Que o céu receba sua alma em festa.

Por mais que tente, nunca chegarei perto da alma heroica de Kayla Mueller, uma médica voluntária americana que foi capturada pelo Estado Islâmico na Síria e que foi mantida refém e estuprada constantemente no cativeiro. Antes de ser morta, Kayla tentou proteger várias outras mulheres de se tornarem escravas sexuais. Por que Kayla nunca foi capa da TIME?

Há algo de errado num mundo que aplaude desqualificadas que ficam ricas e famosas sabe-se lá como enquanto Heley Batista e Kayla Mueller viram notas de pé de páginas na história. Herói é quem coloca em risco sua própria segurança, seu patrimônio e sua vida para ajudar o próximo, não quem lucra numa troca de favores inconfessáveis e anos mais tarde, milhões e milhões na conta bancária depois, resolve, em outra jogada de marketing, faturar ainda mais com o vitimismo. Esse falso holofote não joga luz no verdadeiro problema do assédio.

Antes que os assassinos de reputações apareçam distorcendo esse texto, é bom deixar bem claro: os vilões dessas histórias de assédio são evidentemente os assediadores, mas quem topa voluntariamente trocar sexo por uma promoção ou um caminho mais curto para a fama não merece prêmios pelo simples motivo de que muitas mulheres, na mesma situação, recusaram a oferta. Outras ainda denunciaram seus agressores, correndo todo tipo de risco para que estes monstros não cometessem mais crimes e fizessem mais vítimas. São elas que merecem meu respeito e minhas homenagens. Acredite, sei do que estou falando, o caminho mais longo e sem “atalhos” para o sucesso é demorado mas é também libertador.

Muitas atrizes de Hollywood que hoje são festejadas como “quebradoras do silêncio” passaram anos numa bizarra mudez alimentando uma perturbadora cumplicidade que acabou protegendo predadores sexuais. Enquanto roteiros de filmes eram trocados e fotos no tapete vermelho com vestidos de grife eram tiradas, outras mulheres sem a mesma projeção que as empoderadas de Hollywood eram vítimas de estupros e assédio sexual.  Por que demoraram tantos anos para se tornarem “a voz das mulheres”?

Não me peçam para reverenciar atuações de mulheres poderosas e milionárias que davam belos discursos com os olhos marejados sobre o assédio e a violência contra a mulher enquanto fingiam não saber quem eram os predadores, alguns deles na platéia como Harvey Weinstein. Não julgo nem condeno, cada um sabe de si, mas também não me peçam para aplaudir celebridades consagradas que escolheram se calar por anos e anos contra os algozes de quem não tinha a mesma voz.

Assim como nas telas, estas celebridades foram atrizes também na vida real, escondendo uma verdade inconveniente para blindar uma vida de festas, glamour, dinheiro e mentiras. Hipocrisia e atuações dignas de um Oscar.