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Políticos vêm e vão, o Brasil fica

Ana Paula Henkel

29 Novembro 2017 | 12h16

Na semana passada, comemoramos na América o Dia de Ação de Graças, evento que reúne as famílias do país num espírito de comunhão, paz, união e boa vontade. É a única data que realmente para o país. Em volta da mesa, agradecemos tudo que recebemos de bom no último ano e renovamos os laços com quem mais amamos. É uma data em que buscamos superar as diferenças em nome do milagre da vida e do privilégio de viver numa nação livre e abençoada.

Foi neste clima que li um email de um (agora ex) amigo que rompia unilateralmente a amizade comigo por preferências políticas que ele supõe que eu tenha, sem se dar ao trabalho de perguntar ou checar, e por eu ser “conservadora”, palavrão da atualidade (peguem suas bóias, a onda conservadora está passando, dizem). O texto mencionava significados tão rasos e equivocados sobre o conservadorismo, algo que no universo mental do autor significa “apoio à censura” e “apoio à ditadura”, que achei que a conta de email do (agora ex) amigo intelectual tinha sido hackeada.

Ler o que li, ainda mais morando num país profundamente conservador como os EUA, no sentido correto do termo, e que é o símbolo da liberdade e da democracia no mundo, torna tudo ainda mais surreal. Pensei então em Edmund Burke se revirando no túmulo se ouvisse aquelas palavras costuradas equivocadamente à ideia do conservadorismo do meu (ex) amigo engajado.

O email me acusa, julga e condena sem provas e sem dar qualquer direito de defesa, mas de alguma forma seu autor acredita que essa é uma forma de combater a “ditadura”, quando é exatamente assim que ditaduras tratam quem ousa ser visto como inimigo do regime. A intolerância em nome de uma versão pervertida da ideia de tolerância, como o tal email mostra, é um dos males do século.

Sou eleitora no Brasil mas ainda não decidi meu voto para a próxima eleição presidencial. Como diz o genial Guilherme Fiuza, “faltam dez anos para 2018”. Se discutir nomes e candidatos com tanta antecedência é um exercício apenas especulativo e fútil, o que dizer de quem rompe amizades sob o mesmo pretexto? Somos ou deveríamos ser melhores que isso. Pra quê essa saia justa?

E vamos ser francos, numa saia justa está o Brasil, ou melhor, numa encruzilhada. Depois de mais de dez anos sequestrado por um projeto cleptomaníaco de poder que dinamitou a economia, minou as instituições e dividiu a sociedade como nunca se viu antes, temos a chance rara de discutir um novo rumo fora das respostas fáceis e erradas para problemas muito difíceis. Não podemos desperdiçar mais uma vez a oportunidade de repensar o país além de candidaturas. Políticos vêm e vão, o Brasil fica.

Na América passamos por uma das eleições mais imprevisíveis de todos os tempos. Candidatos nada populares se confrontaram em debates pra lá de inusitados. A democracia não é perfeita, mas é um sistema que ao menos tem a possibilidade de aprender com os próprios erros. Os problemas da liberdade são curados com mais liberdade. A América é uma nação que sempre prezou a alternância de poder.

Não é sempre assim, claro. As duas eleições de Barack Obama provam que o eleitor não está imune a votar em personagens carismáticos a despeito de suas ideias. Não há uma profunda diferença ideológica ou programática entre Obama e Hillary, ambos pregam a mesma cartilha progressista, porém, muito da histórica derrota de Hillary Clinton e de seu partido em 2016 – o pior resultado eleitoral em quase 80 anos – pode ser computado à imagem nada carismática e arrogante da democrata.

Do lado republicano, uma parte importante do eleitorado de Donald Trump, mesmo não simpatizando com seu linguajar chulo, seu topete laranja ou seus tweets malcriados, tapou o nariz e votou no candidato que a América precisava e não o que desejava. Metade do país decidiu ignorar seu personagem e focar em mais seriedade no controle de fronteiras e menos amarras para trabalhar, em mais apoio aos jovens que lutam no exterior contra o terrorismo do que políticas internas para agradar ativistas e minorias barulhentas que vivem contra o senso comum e a maioria silenciosa. Republicanos não votaram num salvador da pátria, mas em ideias e em um plano de governo mais conservador, com mais foco nos indivíduos, no empreendedorismo e na produção.

Se a América pagou o preço de ter por oito anos um presidente progressista que dobrou o déficit público acreditando que ao menos conseguiria avançar nas questões raciais, o que lamentavelmente não aconteceu, como justificar o aparecimento recente no Brasil de candidaturas como a de Luciano Huck? O que pensa o apresentador, quais são suas ideias, qual era sua proposta para o país? Quais credenciais mostrou ao brasileiro para merecer tanta atenção e consideração como presidenciável? Qual sua plataforma? São perguntas que devem ser feitas para qualquer candidato. Nomes ou personagens carismáticos podem vencer eleições, mas são ideias e planos de ação que movem um país. Por que não estamos discutindo essas ideias?

Quem adere ao erro de apenas defender nomes em vez de propostas neste momento tão delicado da nossa história está abdicando de pensar e tudo que precisamos agora é de cabeças pensantes e questionadoras que ofereçam alternativas para o país fora das amarras do pensamento hegemônico que nos trouxe até aqui. Ver intelectuais como meu ex-amigo seduzidos pelo jogo baixo da rotulação barata é mais um sinal de como ainda precisamos avançar politicamente, independente do resultado de eleições.

Perdi uma amizade sem saber o que ele pensa sobre como tirar o Brasil do atoleiro. Ele sequer me explicou o que quis dizer com ser um “liberal radical” em contraposição ao que pensa que é o meu “conservadorismo”. Tenho certeza de que seria uma conversa esclarecedora e enriquecedora para ambos, mas esta foi mais uma oportunidade perdida. Espero que ele não perca as próximas e saia da pequena bolha de quem apenas repete o que já sabe ou pensa que sabe.

Meu desejo é que outras amizades não se percam por política. É hora de conversar mais e rotular menos, de pensar mais e gritar menos, de apontar o lápis e não o dedo, de propor sem impor ou supor. Faça um exercício: escreva cinco propostas objetivas para o país e apresente para os amigos. Argumente, discuta, ouça e troque ideias com respeito, empatia e curiosidade sincera pelas dúvidas e objeções dos outros. É só assim que vamos avançar, votando em políticos que defendam nossas ideias e não as deles.