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Onde há fumaça, há fogo

Ana Paula Henkel

01 Maio 2018 | 11h58

Com a energia típica de uma criança de oito anos, recém chegado numa cidade do interior da Alemanha com os pais e a irmã, Bruno estava entediado. Ninguém para brincar, nada para fazer, até que descobre Shmuel, menino com pijama listrado que se torna seu melhor amigo. A história deste filme de 2008 você conhece e sabe como termina: com as duas crianças na câmara de gás. O pijama listrado de Shmuel, fornecido pelo governo nazista, era vestimenta e sentença.

A morte forçada de crianças “degeneradas” ou “incompatíveis com a vida” na Alemanha precede a Segunda Guerra. Em 14 de julho de 1933, a “Lei de Prevenção de Descendentes com Doenças Hereditárias”, parte indissociável da política de purificação racial nazista, foi aprovada e previa a esterilização forçada de cidadãos que, segundo a Corte de Saúde Genética, poderiam gerar filhos com anomalias genéticas. A separação entre igreja e Estado é uma conquista civilizacional, a separação entre ciência e Estado ainda estamos por ver.

Depois da implementação da esterilização compulsória, o próximo passo evidentemente seria a eutanásia em massa. Em 1939, semanas antes da invasão da Polônia, o programa “T4” estatizou a decisão de viver ou morrer na Alemanha, entregando para burocratas do Estado o poder de encerrar a vida dos próprios cidadãos por critérios que incluíam de doentes terminais até onde a imaginação do funcionário público encarregado poderia alcançar.

O que se viu foi insuportável até para o povo que colocou os nazistas no poder. Crianças, especialmente de três anos ou menos, eram tiradas à força dos pais com a justificativa de precisarem de cuidados médicos, mas acabavam morrendo em cirurgias e procedimentos que mascaravam o assassinato de alemães considerados indesejáveis pelos eugenistas do Estado. O mesmo cidadão que elegeu Hitler poderia descobrir que seu líder considerava seu filho ou filha inapropriado para continuar vivo.

O programa foi abolido em 1941 depois que o povo alemão se mostrou indignado com a arbitrariedade dos assassinatos governamentais, mas a prática continuou longe dos olhos da população até 1945, o que incluía os indescritíveis experimentos de Joseph Mengele. Não há sangue que satisfaça a sede de matar de um Estado autoritário, especialmente quando a saúde da população está sob seu controle. As justificativas do governo nazista para o “T4” são as mesmas para os defensores da eutanásia compulsória até hoje: compaixão pelo doente terminal e economia de recursos públicos. Mesmo nazistas não assumiam o que estava realmente em jogo.

O cheiro dos corpos das crianças alemãs mortas e queimadas no “T4” nazistas é o mesmo que se sentiu na Inglaterra em 2014 quando se descobriu que diversos hospitais do NHS, o famigerado sistema de saúde estatal britânico, queimava os restos mortais de fetos sem a autorização e muitas vezes sem o conhecimento dos pais. Alguns chegavam a usar a energia gerada nos fornos pelos corpos das crianças num sistema macabro de reciclagem. Pelo menos 15.500 fetos humanos foram incinerados em dois anos, até que a prática fosse descoberta e interrompida. Os autores continuaram em seus cargos como se aquelas crianças nunca tivessem existido.

Nem Margareth Thatcher conseguiu controlar os tentáculos e o poder do NHS, mesmo sendo a responsável pelas mudanças que avançariam muito o sistema depois de seu governo nos anos 90. Como não havia como se livrar do aparato socialista da saúde britânica, assumiu a postura clássica conservadora de avançar o quanto possível, mas nada que impedisse os problemas mascarados pelo jornalismo engajado de ontem e de hoje. Entregar o sistema de saúde de um país para a burocracia estatal é o sonho de todo político com ânsia de controle total, como vimos aqui nos EUA com o desastroso Obamacare.

Por mais triste que seja admitir, muito da eugenia nazista tem raízes na América. Desde 1880, início da chamada “Era Progressista”, a eugenia era levada a sério por aqui e muito do que se fez na Alemanha nazista foi antes discutido e desenvolvido por acadêmicos e intelectuais americanos. O símbolo da eugenia americana foi a enfermeira Margareth Sanger, fundadora da maior multinacional do aborto do mundo, a Planned Parenthood. Quem se espantou com os vídeos aterrorizantes divulgados há meses (e devidamente abafados pela imprensa) de funcionários da empresa descrevendo como matavam fetos abortados para vender partes de seus corpos não conhece o que pensava Sanger e como suas idéias de esterilização e interrupção da gravidez de pobres e negros estão umbilicalmente ligadas às monstruosidades realizadas até hoje. Em 2017, a Planned Parenthood matou 320 mil fetos, aproximadamente mil todos os dias do ano.

Os males da estatização do sistema de saúde podem se manifestar tanto em genocídios quanto em casos chocantes como da morte do menino Alfie Evans, que teve essa semana seu tratamento interrompido por decisão da justiça britânica e contra a vontade dos pais, um ato que contou com o apoio de Theresa May. Mudam os países, os governos, mas a sanha autoritária dos burocratas do Estado é a mesma.

Rezo pelos pais de Alfie Evans e por sua alma inocente. Seus últimos dias de vida mereciam mais respeito, assim como sua família. O bebê, segundo os médicos britânicos, não tinha chances de sobreviver, mas recusar a oferta do governo italiano para estender os cuidados em seu país é inaceitável e um precedente perigoso.

Podemos ignorar o cheiro de fumaça que sai das chaminés dos hospitais britânicos, assim como os pais de Bruno não imaginavam as consequências da amizade dele com o menino do pijama listrado. O que não podemos é evitar as consequências de tamanha negligência.