As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Filhos da pátria

Ana Paula Henkel

25 Setembro 2017 | 22h45

Acredito que você já ouviu falar que eu e Ana Moser não somos melhores amigas. O que talvez você não saiba é que quando estávamos juntas defendendo o Brasil nas quadras daríamos tudo, como demos, uma pela outra. Nós éramos um time, um uniforme, uma nação. E nada mais ali importava.

Depois de ouvir o hino e vestidas com o manto sagrado da seleção brasileira, o peso da responsabilidade de carregar as esperanças da nossa torcida, a honra de representar o país nas maiores competições internacionais e a oportunidade de mostrar ao mundo a força e o talento do nosso esporte eram infinitamente maiores do que qualquer desavença ou picuinha. Éramos por alguns momentos o Brasil e o Brasil era também cada uma de nós.

Todas essas lembranças me invadem quando vejo, com profunda tristeza, jogadores da NFL, a liga esportiva mais rica do planeta, desrespeitando o hino americano e a bandeira. Mesmo meu time, o New England Patriots, campeão nacional e patriota até no nome, foi um dos protagonistas dessa ingratidão com os heróis que deram tudo pelo país que hoje esses jovens milionários, mal informados e mimados, desdenham. A vaia da torcida dos Patriots, que jogava em casa, foi uma resposta do americano comum que ecoa até agora na memória de todos que presenciaram o último jogo. A arquibancada ainda é patriota.

Esportistas como os astros da NFL fazem parte de um panteão de ídolos que servem de modelo e exemplo para as crianças que vêem neles, ou deveriam ver, o resultado positivo de anos de esforço, dedicação, persistência, resiliência e superação. Eles são protagonistas dos sonhos das próximas gerações não apenas de esportistas mas também de civis e militares que defenderão o país com a própria vida nos cantos mais remotos e perigosos do mundo.


Se os ídolos desta geração não podem mostrar um mínimo de respeito e reverência aos símbolos nacionais por dois minutos, como justificar que outros façam sacrifícios reais pela pátria? Como lutar até a morte pela bandeira que envergonha os astros da nação? O que dizer para viúvas, pais, mães, irmãos e filhos que perderam seus entes queridos nos campos de batalha?

É claro que a motivação dos atletas por trás de seus atos é o de marcar pontos na guerra político-partidária, mas quando o radicalismo ideológico de uma geração desorientada, perdida e manipulada derrota os laços mais básicos que unem o país, começamos a trilhar um caminho que não pode terminar bem. E se perdermos a América, Deus tenha piedade de nós. Esses meninos da NFL podem ser salvos, nada que uma visita ao cemitério de Arlington não resolva. O que importa é que a tendência de ruptura social seja combatida enquanto ainda pode ser controlada.

Espero nunca ver uma jogadora de vôlei brasileira desrespeitando nosso uniforme, nosso hino, nossa bandeira e nosso povo. Não me importo se cada uma delas, no íntimo, é “Fica Temer” ou “Fora Temer”, assim como eu e Ana Moser nunca pensamos em política, um tema que nos separa democraticamente, quando estávamos recebendo cusparadas das cubanas nas quadras.

Se um dia uma jogadora ofender um dos símbolos do Brasil numa quadra de vôlei, ela estará também cuspindo em tudo que eu, Ana Moser, Virna, Márcia Fu, Fofão e tantas outras sofremos naquelas batalhas pela honra e respeito a estes mesmos símbolos. Ali não somos Ana Paula ou Ana Moser, somos o Brasil.

Uma das lições mais importantes da política é que não devemos e não podemos politizar cada momento das nossas vidas. A política partidária e as divergências ideológicas são parte da vida, mas muito menores que ela.

A sociedade civil precisa ser civilizada. Precisamos conhecer e respeitar o que nos une antes de alimentar o que eventualmente nos separa. Esta é a essência do bom patriotismo, dos laços que nos lembram que fazemos parte de algo maior, muito maior, que nós mesmos.