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Ana Paula Henkel

09 Outubro 2017 | 19h00

“A polícia não interrogou os pais?”, perguntou uma amiga americana ao ver, chocada, a foto do performer pelado com crianças num museu. Numa roda de mães que moram na vizinhança, todas concordaram que aquela “interação” de um adulto nu com menores de dez anos de idade não é de esquerda, de direita, de cima, de baixo, é caso de polícia. Para elas, a presença da mãe no museu com a criança não é atenuante, pelo contrário. Mesmo a parte mais à esquerda da América ainda sabe o que é direito.

Minhas vizinhas são “progressistas e moderninhas” como é comum no Golden State. Temos divergências ideológicas, mas a divisão política não faz com que se aceite esse tipo de evento com crianças. Uma delas exclamou indignada com os olhos arregalados: “arte??!” quando contei que havia uma tentativa de se cobrir tudo com o manto da liberdade de expressão criativa e artística. A Califórnia é praticamente o centro mundial da indústria do filme pornográfico, São Francisco é conhecida como a capital gay do planeta, a legislação sobre drogas é muito leniente, lembre que não estamos falando de um lugar puritano sob qualquer ponto de vista.

Meus amigos no Brasil que estão contra as tais exposições de crianças à pornografia, mesmo sob o pretexto da “nudez na arte”, podem ter certeza de que os xingamentos diários da imprensa de que são “fundamentalistas religiosos”, “obscurantistas” e “fascistas” não colariam aqui na América. Pelo contrário, a leniência com a pedofilia é mais comum em regimes como o de Mao Tsé-Tung na China, o maior assassino da história da humanidade, ele mesmo um conhecido pedófilo. No país da liberdade de expressão, sabe-se desde sempre que liberdade caminha lado a lado com responsabilidade.

Sei que parte do Leblon acredita que inventou o sexo livre e inconsequente, mas lamento informar que Sodoma e Gomorra são um pouco mais antigas do que a Dias Ferreira. Calígula, o exótico imperador romano que tinha alguns dos hábitos “artísticos” que alguns apartamentos da Vieira Souto consideram modernos, ficaria ofendido se soubesse que dois mil anos depois um certo balneário do hemisfério sul brigaria para registrar a patente dos seus prazeres.


A frouxidão moral de alguns artistas e intelectuais não serve de parâmetro para uma sociedade que respeita o bom senso, a razão e a sabedoria acumulada por gerações e gerações que entenderam os males causados pela erotização da infância. O ponto central da pornomilitância é tirar o foco do que fez a sociedade reagir: as crianças. E nada mais. Quem eles pensam que enganam mudando de assunto e falando em nudez?

O roqueiro Roger Rocha Moreira, vocalista do Ultraje a Rigor, quando cantava “Pelado, nu com a mão no bolso” ainda no final dos anos 80, já provocava os falsos moralistas e falava por todos nós. Assim como denunciava a “barriga pelada” como a vergonha nacional, alertava: “indecente é você ter que ficar despido de cultura”. Sem educação, informação e noção, confunde-se pornografia com arte e aí nem museu escapa.

Existe uma maioria silenciosa que como Dona Regina, senhora entrevistada na platéia do programa de Fátima Bernardes que ousou desafiar a “echo chamber” dos engajados progressistas tupiniquins, está disposta a deixar seus afazeres diários em nome da defesa da infância. A expressão de nojo e deboche de uma atriz para uma senhora tão educada e humilde, ao vivo e em cores, mostrou ao Brasil o abismo que existe entre os habitantes do planeta mídia e os duzentos milhões de brasileiros que não querem suas crianças sendo usadas como objetos de experimentos sociais. O desdém e o ar de superioridade de jovens atores contracenaram com a elegância e a sabedoria de uma verdadeira representante da maioria da população brasileira.

Dona Regina, apenas com a interjeição “e a criança?”, deixou claro que erotização infantil só é cultura para um pequeno grupo de afetados, arrogantes e alienados que lutam em vão contra o senso comum. Os cabelos brancos e os trejeitos simples de avó que acabou de fazer um bolo para os netos desmontou o pensamento único do sofá “cool”  do programa.

Em vez de ideologizar o assédio a crianças, o brasileiro deve mesmo reagir quando se comete um crime a despeito da desculpa. Como já disse numa coluna anterior, há questões muito maiores em jogo do que se você é “Fica Temer” ou “Fora Temer”, se você é de “esquerda” ou “direita”, como bem sabe o diretor do Louvre, o maior e mais importante museu do mundo, ao mandar recentemente retirar uma peça vulgar porque estava à vista de crianças.

Se o Brasil tivesse problemas com a nudez ou com a exploração vulgar do corpo, como explicar Carnaval, o funk proibidão e as novelas? A ideia de que “não existe pecado do lado debaixo do Equador” tem limites, como o brasileiro está deixando claro nos últimos tempos.

Tirem as crianças da sala que o brasileiro continuará bocejando para peladões carentes de talento e veículos com cada vez menos audiência, relevância e credibilidade. A classe que pretende falar em nome dos brasileiros está falando sozinha.