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Marcelo Moreira

17 Agosto 2008 | 20h52

RENATA GAMA – O ESTADO DE S. PAULO

Quem foi na onda do boom imobiliário e comprou imóvel na planta financiado pela construtora tem sentido o impacto direto da alta da inflação. As parcelas e o saldo devedor são corrigidos mensalmente pelo Índice Nacional dos Custos da Construção (INCC) que, em sete meses, subiu mais do que o acumulado do ano passado inteiro. De janeiro a julho deste ano, a alta foi de 7,66%, contra 6,03%, em 2007. O indexador é uma das três variações que compõem o Índice Geral de Preços (IGP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

“A diferença é assustadora. Quem acompanha a variação do mercado realmente está com pé atrás”, afirma Tiago Antolini, advogado especializado em Sistema Financeiro da Habitação (SFH) e diretor da Associação dos Mutuários e Moradores das Regiões Sul e Sudeste do Brasil (AMM).

Já os que financiaram na planta pelo crédito bancário não perceberam diferença nas prestações. É que, neste caso, as parcelas são corrigidas anualmente de acordo com os juros contratados, mais a variação da TR (Taxa Referencial), que sofre impacto menor da variação de preços. No entanto, a cobrança dos juros torna esta opção mais cara.

Por causa da variação do INCC, a dívida da psicóloga Isabela Lopes, que comprou um imóvel na planta financiado pela construtora, em Osasco, na Grande São Paulo, aumentou R$ 5 mil entre março, quando fechou o negócio, até hoje. O saldo devedor está em R$ 125 mil. “A gente sabia que a correção pelo INCC tem uns meses de pico, mas o aumento está muito maior do que a gente pensou.”

Mês a mês, Isabela vê as parcelas subirem rápido. De R$ 600, em março, o valor já subiu para R$ 640. “Num mês R$ 10, no outro R$ 20. Parece pouco. Mas até receber as chaves, não tenho noção de quanto vou estar pagando.”


Isabela Lopes não contava com alta expressiva do INCC (FOTO: JOSÉ PATRÍCIO/AE)

A previsão é que o apartamento seja entregue em 2010 e a psicóloga já está começando a pensar em alternativas para amortizar a dívida e reduzir o saldo devedor. “Se continuar assim, a gente vai tentar antecipar o pagamento da parcela das chaves, que é a maior, até o fim do ano.”

Surpresa

A técnica em edificações Flávia da Silva Ferreira foi pega de surpresa com os aumentos. Ela comprou um apartamento em Cotia em fevereiro deste ano e diz estar assustada com os aumentos mensais das prestações. “A correção não foi falada quando comprei. Achei que ia ser fixo até a entrega das chaves. Mas a tendência é todo mês aumentar um pouco”, diz. O valor mensal pago subiu de R$ 318 para R$ 335.

A maior diferença, no entanto, tem sido sentida por quem já recebeu as chaves e continuou pagando diretamente para a construtora, em vez de quitar ou optar pelo crédito bancário.

É que, a partir do momento em que o imóvel é recebido, começam a incidir juros sobre as parcelas, além da variação do IGP-M – que acumulou até julho uma alta de 8,69%. “Deve-se ter um cuidado dobrado, o IGP-M ainda é superior ao INCC. Muitos mutuários que financiam pela construtora não entendem por que as parcelas, depois da entrega, praticamente dobram”, observa Antolini.

Para quem está prestes a receber as chaves do imóvel, o advogado recomenda que se aproveite a transição para migrar para o financiamento bancário. “Porque a variação da TR nos últimos anos tem sido muito inferior a do IGP-M e o INCC.”

Vendas

Para João Crestana, presidente do Sindicato das Empresas de Compra e Venda de Imóveis (Secovi-SP), a inflação não tem afetado o movimento nos plantões de vendas dos lançamentos. Ao contrário, o setor comemora o bom desempenho.

Conforme a última pesquisa divulgada pela instituição, com dados de maio, as negociações de lançamentos cresceram 56% sobre abril e 33,8% em relação ao mesmo período de 2007. “Por enquanto, não é esse o fato que prejudicaria as compras. As previsões que temos visto é que temos mais dois ou quatro meses de inflação alta”, diz.

Mas o setor está confiante de que a alta de preços será freada. “É um surto que está passando, que vai dar uma diferença de 0,5% na prestação e as pessoas estão com bastante confiança no combate à inflação que já começou a ceder.”

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